terça-feira, 23 de outubro de 2012

Hoje não, obrigado



Vendedores Ambulantes - Pedro Ruíz

Vira e mexe somos surpreendidos por vendedores ambulantes ao andar pelas ruas, geralmente onde o comércio está em maior concentração. Esse tipo de emprego informal vem sendo cada vez mais comum, numa esquina e outra do centro da cidade, há sempre um deles vendendo alguma coisa curiosa, uma novidade pra criançada ou utilidades para adultos, que são também vendidas nas lojas do shopping com preços absurdamente mais caros, mas com qualidade superior, claro. Os ambulantes gritam, chamam atenção da clientela que passa, oferecem o produto, dão descontos instantâneos e têm uma lábia incrivelmente desenvolvida, afinal eles precisam sobreviver.
Certo dia eu estava com a minha mãe no centro, andávamos pelo calçadão, quando fomos surpreendidos por um ambulante que falava tão rápido que se suas palavras saltassem de paraquedas não teriam tempo de ativá-lo, iriam se esborrachar no chão. Nós desaceleramos o passo, mas continuamos caminhando enquanto ele dizia alguma coisa. Na sua mão esquerda havia uma caixa de sapatos com a tampa na base da caixa. Dentro dela eu pude ver algumas daquelas pulseiras em forma de fio de telefone além de outras bugigangas que não notei exatamente o que eram. Mas o produto que ele estava nos oferecendo era outro. Uma daquelas canetas-calendário, sabe? “É baratinho é baratinho!” Minha mãe não tinha interesse algum em comprar a caneta, muito menos eu. Nem mesmo se quiséssemos seria possível... Não tínhamos nada de dinheiro! Nada mesmo. Estávamos justamente indo ao banco naquele momento. Minha mãe, então, respondeu ao rapaz que a gente estava sem dinheiro. Pra quê! Esperávamos um “Deus te abençoe”, “tudo de bom” ou até um “Obrigado”, mas não. Uns dois passos a frente dele, ouvimos sua exaltação: “Oxi...! Se vocês não tem dinheiro, eu tô comendo comida do lixo!” Percebi minha mãe arregalar os olhos e olhar pra mim; olhei para trás e sua figura estava ali parada, vendo-nos seguir nosso caminho. 
Na hora eu desejava o insucesso das vendas dele.  Aonde já se viu falar uma coisa dessas? Minha mãe estava indignada com a grosseria e eu estava nervoso. Pô, a gente não tinha dinheiro e além do mais não queríamos a caneta. Acho que o problema foi usar a verdade errada pro contexto. Quantas pessoas ele não deve abordar diariamente que dizem a mesma coisa? Por que, em pleno centro da cidade, uma pessoa não teria dinheiro? Nós realmente não tínhamos, mas e as outras centenas de pessoas que dizem a mesma coisa? Algumas delas com compras tomando suas mãos, outras tão bem vestidas que fica difícil de acreditar. Talvez se tivéssemos recusado o produto, sua manifestação não fosse tão negativa. Ou fosse. Sei lá.
Dois meses depois eu estava passando por outra rua do centro, dessa vez sozinho, em dezembro, o calçadão entupido de pessoas fazendo suas compras de natal. Eu havia saído do curso e estava indo resolver algumas coisas por ali quando fui abordado pelo mesmo ambulante. Nem passava pela minha cabeça que ele me reconheceria até que ele me tacou o seguinte: “Não vai dizer que tá sem dinheiro agora, né?” e seguiu com um sorrisinho. A mesma caixa de sapato na mão esquerda, mas dessa vez nada de caneta-calendário. Na mão direita havia uma amostra do que ele vendia dessa vez. Saquinhos pra presente daqueles que brilham e são mais bonitos que os tradicionais papéis colados com durex. “Eu tenho dinheiro e é pra almoçar. Eu não tô precisando de saquinho de presente.” Foi tudo o que eu disse seguindo com um passo a frente. Não seria uma surpresa se ele me atacasse com sua frase de vendedor revoltado. Mas tudo o que ele disse foi “Eu também preciso almoçar. Precisava almoçar aquele dia. E não almocei.” Eu percebi que o ambulante realmente se lembrava do dia que eu estava com minha mãe e senti um nó quando ouvi aquilo. Eu estava morrendo de fome, mas eu tinha a certeza de que eu comeria alguma coisa por ali ou pelo menos eu tinha a segurança de que havia dinheiro no bolso. Já ele, não...
Eu já estava um pouco distante dele, então resolvi continuar. Parei em uma lanchonete para comer e fiquei pensando em tudo aquilo. Olhei meu dinheiro na carteira, olhei pra tabela de preços. Era o suficiente pra dois lanches e duas bebidas. Comprei...     
Voltei ao calçadão, onde ele ainda abordava as pessoas, indo de um lado para o outro, procurando pelo rosto menos fechado e que provavelmente não o ignoraria. Aproximei-me com os lanches e esperei até que ele terminasse a venda para uma velhinha. Quando ele me viu, mostrei a sacola na minha mão e ele se aproximou. Entreguei a ele e avisei-o de que pelo menos seu almoço estava garantido. Ele não sabia como agradecer, ficou todo sem jeito... Pegou uns saquinhos de presente da caixa de sapatos e tentou me dar. Não aceitei. Pedi que ele guardasse aqueles saquinhos pra conseguir o almoço dos outros dias.
Eu ainda precisava comer o meu lanche, mas antes iria resolver outras coisas. Enquanto eu caminhava pelas calçadas, via muitos outros ambulantes vendendo bugigangas, bolsas, capas de celulares, frutas, doces. Alguns eram ignorados, outros até conseguiam uma clientela boa, como aqueles que vendem bolsas parecidas com as carérrimas originais (Tenho um posicionamento sobre pirataria que não cabe agora no contexto). Mas o que mais me chamou atenção - e de certa forma me entristeceu - foi perceber a simplicidade e humildade com que muito deles agiam quando as pessoas sequer olhavam em sua direção. Era uma conformação. 
Talvez o ambulante da caneta-calendário estivesse cansado de se conformar. Talvez toda sua paciência já estivesse esgotada. Por um tempo eu havia achado sua atitude insensata, mas depois daquele dia em dezembro, eu entendi e senti de longe como seria difícil lidar com a informalidade e ser apenas um ícone irrisório dos centros lotados aos olhos das milhares de pessoas que passam por ali todos os dias. Não havia prazer algum na profissão, além de tudo. Era pura necessidade. 
Isso tudo me fez mudar... Não passei a comprar tudo o que vinha pela frente vendido por ambulantes, claro. Mas agora sei que minha educação e atenção podem ser usadas. Não me custa parar e usar dez segundos do meu tempo pra dizer “Hoje não, obrigado. Tenha boas vendas”.

Luís Fellipe Alves



19 comentários:

  1. Nossaaaa, Hugo, agora virei definitivamente sua fã! Fui conquistada não somente pela qualidade dos escritos, mas pela rica experiência de vida compartilhada aqui, revelando qualidades da pessoa por trás destes escritos... parabéns!!!

    Tenho sensibilidade aguçada para as causas sociais e muitas vezes me entristeço por compreender que não solucionaremos o problema da fome no mundo apenas com nossa boa vontade, o problema vai muito além de nossas possibilidades de agir. Mas, sabe, atitudes como a sua fazem enorme diferença! Para aquele que recebe e para você, que doou o que naquele momento você podia doar. Ele, recebeu alimento e atenção; você, recebeu a certeza de que educação e atenção não custam nada! Não consertaremos o mundo com nossa gentileza, mas criaremos um ambiente muito mais motivador para aqueles que precisam diariamente "suar a camiseta" para ter algo pra comer.

    Parabéns duplamente: pelo texto, mas principalmente pela nobre atitude! Um abraço.

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  2. Olá, Hugo, que bonita sua atitude! Tenho certeza que você sentiu-se muito bem, muito humano levando um pouco ao vendedor que ainda quis agradecer da maneira dele. Isso aconteceu comigo num dia de natal, com uma florista. São coisas que emocionam. Na verdade não sabemos o quanto de sacrifício e de humilhações passam essas pessoas para ganharem seu sustento honestamente. Cada vez mais, aparecem corações petrificados, e entre eles surgem outros solidários e humanos. E aí que se nota a diferença do ser humano, um pouco já desacreditado, segundo meu ponto de vista.

    Grande abraço!
    Mandou bem, amigo.

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  3. Oi Hugo. Vim aqui para agradecer tua visita em meu blog. Confesso que era apenas uma visita de retribuição, alguns minutos atrás, sorri, me arrepiei, chorei e agora retorno ao normal para lhe dizer duas coisas:

    1ª Tua atitude é de fato, coisa que pouco vemos em nossos dias, por isso talvez a minha emoção. Em tempos como o nosso realmente atitudes assim "espantam" pois parecem algo fora do comum...

    2ª - Saio daqui com olhar diferente. Perder tempo com os outros, ou "falando a verdade" pode nos trazer coisas boas!

    Ah e vou acrescentar uma ultima coisa.

    3ª - Reafirmei minha iniciativa de continuar acreditando em alguns vendedores que entram nos coletivos vendendo balas. São raras as vezes que eu compro, porque raras vezes os encontro. Mas fazer o que se eu tenho dinheiro e sou viciada em balas...

    Um abraço. E tenha certeza de que retornarei aqui.
    Temos também que "perder tempo" (?!) lendo os blogueiros! ;)

    Até mais ver!

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    1. Poxa!! legal mesmo este aprendizado hein! fico feliz que tenha servido pra mudança. Gosto quado me acontecem coisas assim. A verdade tem os prós e os contras. hehehe. Adorando conhecer teus pensamentos. ;)

      Abraço!

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    2. Concordo! Adorando a sua visita também e claro, conhecer sua arte com as palavras!
      Abraço.

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  4. Olá!

    Sempre (na verdade quase sempre, pra se alguma vez deixei pra trás não passar de mentirosa...rsrs), eu visito quem segue ou comenta em meu blog.
    Adorei a palavra e a proposta de Cronicalizarmo-nos, até já conjuguei e vou adicionar ao meu dicionário do Word.
    Adorei essa da licença poética ou seria léxica concedida pelo word e peço licença para fazer uma crônica a partir dessa sua tirada, afinal há que se divulgar e agradecer pelo Word ser tão sem burocracias com a nossa livre criação e adicionação no dicionário. Darei, lógico,a devida referência a seu blog e sua criativa e espirituosa pessoa, embora eu seja meio da corrente de Manoel de Barros...

    “O rio que fazia uma volta atrás da nossa casa
    Era a imagem de um vidro mole

    Passou um homem e disse
    Essa volta que o rio faz se chama enseada

    Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
    Que fazia uma volta atrás da casa
    Era uma enseada
    Acho que o nome empobreceu a imagem”

    Até!
    Obrigada pela visita, por seguir e apareça sempre por lá!

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    1. Olá Tina! Eu agradeço por seguir de volta rs
      Fique à vontade para escrever a crônica, o nome do blog impera para que você o faça!
      O word... Bom, ele é um bom garoto!

      Esse poema eu ainda não conhecia. A mensagem foi entendida. Bom, eu acho.
      Esses poucos versos dele são os que mais me chamaram atenção ao estudá-lo no médio.
      cinco razões pelas quais vale a pena ser poeta
      "penso que não tive escolha
      fui escolhido e gostei da escolha
      faço o que sonho
      faço o que gosto
      sou um pouco irresponsável
      com os passarinhos, isto seja:
      sou livre
      amo a palavra."

      Obrigado pela visita, aparecerei sempre em seu blog.
      Até mais!


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  5. PS: nem li a crônica, volto depois para ler essa e outras e comentar.

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    1. Voltei!
      Li e reli e já estou maquinando um post sobre cronicalizar, vendedores ambulantes e aprendizados ambulantes. “Não obrigado tenha boas vendas!” = civilidade. Penso que não precisamos ser estressados, nem poéticos ou madres teresas de calcutá, mas sermos educados e de qd em vez gentis e dividir o lanche, ouvir um desabafo ou simplesmente dar um sorriso, é energia boa que vai e volta boa e a corrente do bem se estabelece.

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  6. Olá Luiz Felipe. Que bacana a tua experiência. Gostei bastante de te ler. Primeiro você prende a atenção depois vai lá e faz chover reflexões em nossas mentes. Gosto muito quando encontro espaços assim. Vi que fostes lá em em blog para mim os pensamentos valem mais que ouro mesmo, e ver que você os valoriza tão bem me anima! Já estou te seguindo para acompanhar de perto!

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    1. Vanessa Vieira seja bem-vinda ao blog!
      Obrigado por acompanhar, fico feliz que tenha gostado de minha experiência. Tá aí a magia que enxergo na crônica. Compartilhar momentos como esse que me são tão raros e grandiosos é realizar aquela vontade de chegar em casa ou na casa do amigo pra contar a ele alguma coisa que você precisa falar! É assim que me sinto. E me sinto muito feliz por saber que estou ganhando amigos de blog como você!

      Bom, quanto a seu blog posso dizer que adorei de verdade. "Passagem" é lindo e "Esquecimento" sem comentários! Meus parabéns.

      Conto com sua presença aqui!
      Um abraço.

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    2. Opa, demorei mas vim lhe responder(rsrs). Essa troca na blogosfera é muito rica mesmo.Feliz que tenhas gostado de meu blog. vou tentando, tentando e as letras vão saindo!

      Ficarei mas assídua, prometo!

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    3. Sim, eu estou achando incrível isso tudo! Eu não conhecia muito esse mundo e já estou adorando. Rico demais! rsrs
      Fique tranquila, o dia-a-dia é muito agitado, acabamos ficando sem tempo!
      Abraço!

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  7. Oi! Voltei para te contar que abri meu blog e me deparei com um novo seguidor, chamado Luís Fellipe... mas que estranho, o Hugo havia sumido! rsrsrs Vim até aqui descobrir o que estava acontecendo e, bem-vindo, Luís Fellipe!!! rsrsrs Um ótimo fim de semana pra você.

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    1. Oi Suzy! Ah, quem é esse?!?!
      rsrs
      Eu estava me escondendo atrás de um nome que me acovardava (e eu chamava de pseudônimo, tsc...) Agora estou aqui, nome verdadeiro e de documento! rsrs

      Obrigado pelas boas-vindas, me sinto muito melhor com essa receptividade! Me desculpe não responder antes, estava assistindo um casório nesse sábado... Bom, de qualquer maneira, uma ótima semana pra você! Abraço.

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  8. Ola,entrei para te conhecer e á teu blog,e realmente fiquei surpresa de ler tão excelentes cronicas de assuntos diversos.Admirável teu espaço meu caro amigo.Deixo aqui meus parabéns e meu grande abraço.SU.

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    1. Olá Suzane, seja bem-vinda ao blog!
      Agradeço de coração, é muito importante pra mim receber opiniões como a sua, de verdade. Admirável, devo dizer, é o seu espaço! Estou enriquecendo meu repertório cinematográfico e tendo diante de meus olhos algo que talvez eu demorasse a descobrir, talvez numa tarde casual assistindo TV. Agora vou atrás dos filmes! haha
      Volte sempre, viu? Abraços!

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  9. Parabéns pela crônica e pelo blog. Te vi lá na Tina e não poderia perder! abraços,chica

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    1. Seja bem-vinda ao blog, Chica!
      Muito obrigado, espero que continue visitando!
      Abraços

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Obrigado!




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