sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Presença, não presente






Por volta das seis da tarde, véspera de dia das crianças, embarcou na linha 114 uma mulher de seus trinta e poucos anos, morena. Estava com uma sacola grande com um grande embrulho. Mais adiante entrou uma ruiva. Também com os mesmos traços de idade, umas sacolas menores com alguns embrulhozinhos. Passou pouco tempo até que essa última falasse.
— Hoje em dia está tudo tão caro né? Inclusive criar um filho...
— Mas ou a gente faz assim ou eles crescem revoltados e dizem que os pais nunca se importaram... — Respondeu a morena levantando levemente a sacola. 
—Pois é, menina...
Um tempo passou sem que nenhuma das duas dissesse nada. Isso até o momento em que a ruiva reabriu a conversa perguntando a idade do filho da outra, que respondeu que era um garotinho de dois anos. A morena, então, devolveu a pergunta à primeira.
— Ele ainda não nasceu... Estou de oito meses. — E a ruiva passou a mão na barriga.
Estranhamente não havia barriga. A morena repetiu a quantidade de meses em uma pergunta. "Oito?" E a ruiva fez que sim. A moça morena tentava entender, pensou até em perguntar se a mulher estava sofrendo problemas com a formação da criança. Mas não questionou. Esperou que a ruiva dissesse mais alguma coisa. Nada!
Um silêncio substituiu a conversa por alguns minutos até ser quebrado pela morena.
— Eu queria que ele pudesse me esperar no ponto quando eu chegasse...
— E por que não pede pra alguém levar ele no ponto?
— Porque ele morreu faz três meses.
A surpresa da ruiva foi inevitável.
— Lamento... Eu pensei que...
— Tudo bem... A verdade é que ninguém dava presentes porque ninguém tinha dinheiro. Dias antes de morrer me pediu esse velotrol e eu disse que não tinha recebido... A madrinha também disse não. O pai disse não. A avó disse não.
A ruiva apenas se solidarizou mudando as expressões e esperando que a morena continuasse a falar.
— Sabe, você tem sorte de estar esperando essa criança... — A morena sorriu olhando em direção à barriga da outra. A ruiva, por sua vez, ao ouvir aquelas palavras, levantou-se com as sacolas agora no braço, pois a mão segurava o suporte do ônibus, e com a outra mão acariciou a própria barriga, olhou para a morena e finalizou:
— As crianças são tão perfeitas, especiais e surpreendentes que às vezes nós desejamos ter uma por perto sem mesmo ela existir... — Olhou para a própria barriga e seguiu para o fundo do ônibus, em direção à porta de saída, onde desembarcou com sua sacola.
A morena havia entendido.

Luís Fellipe Alves

2 comentários:

  1. Incrível o seu blogue!
    Leitura de muita qualidade, gostei muito!
    Essa crônica é belíssima. Assim como todas as outras...
    Parabéns, Luís

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    Respostas
    1. Isa E. seja bem-vinda ao blog!
      Agradeço de coração, fico muito feliz por ter gostado!
      As crônicas são mágicas construídas com a realidade.

      Espero que volte mais vezes.
      Um abraço!

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Obrigado!




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