sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A partida de um bom garoto

          Talvez uns cinco bons papos com uma pessoa já sejam o suficiente, principalmente se estivermos falando de alguém de bom coração, para tomar a dor de sua partida. É por esse motivo que escrevo aqui hoje. É com uma tristeza sem tamanho que assimilo a notícia que me fora dada nesta tarde de sexta: faleceu Gustavo Boareto, um colega do cursinho pré-vestibular. Amigo de várias pessoas importantes para mim e que fazia parte do meu recente meio social.

          Sentados na porta da Igreja de São José, em Agosto, batemos um papo sobre o curso especial que ele fazia, ele comentou sobre as dificuldades, as facilidades e as lutas que enfrentaria.Foi aos poucos que eu via nele a bondade que eu procurava em uma das pessoas importantes que citei ali em cima. Vez ou outra a gente se via na porta do colégio, chegando para enfrentar algumas horas de estudo intenso. Isso me lembra que em nosso primeiro papo percebi que ele era bem determinado. Tinha sonhos assim como todo mundo...

          Todos nós caminhamos sem estar na defensiva. Não aguardamos surpresas. Ora, esse o motivo do nome! Surpresas... Não tendem pelo lado positivo, muito menos pro negativo. Se fossem indiferentes não seriam surpresas. Pois então, são apenas... surpresas. E dessa vez o caminho do fato seguiu para o desagradável. Não há quem explique. Não há.

...

          Ônibus. Motociclista. Dezenove anos.

O GUSTAVO??? COMO ASSIM???

          O mundo freou para quem o conhecia. Nos tornamos alheios à intensidade da vida. Uma sensação de slow motion com uma trilha sonora triste. Permanecemos desligados. Descrentes. Muitos, há algumas horas, pediam para que tudo fosse uma brincadeira. Uma brincadeira do Gu. Mas não era. Ele já não estava mais brincando entre nós...

          "Há mais mistério entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia"


Então, mesmo sem poder fundamentar minha crença, eu prefiro acreditar que há uma continuação. "Esse não foi o fim." 

Gustavo, descanse em paz. 


Meus pêsames e sinceros sentimentos a toda a família e amigos do Gustavo.

14 comentários:

  1. Luís Fellipe, sinto muito pelo ocorrido. Não vou citar "chavões consoladores" por aqui porque a coisa não é social. Uma perda dessas é mesmo pessoal. A gente sabe o que os amigos e familiares passam, mas a gente não consegue sentir isso tudo
    Deus abençoe vocês todos e receba o Gu com tudo que ele merece e idealizou.
    Um abraço
    Manoel

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    1. Manoel eu agradeço do coração pelo seu apoio. Eu tenho certeza que o Gu está muito bem e Deus está com ele.
      Obrigado mesmo...
      Abraço.

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  2. Oi Luís,

    Minha alegria ao perceber que você postou - pois gosto de seus escritos - logo deu lugar a tristeza de saber e sentir que você tinha perdido alguém realmente querido, importante em seu círculo de amigos. Não tenho muito pra dizer além dos fúnebres "lamento" e "sinto muito", nessas horas a gente se descobre sem palavras...
    Mas quero comentar seus últimos parágrafos: realmente, não foi o fim. Para mim, isso é uma certeza inequívoca. Acredito em vida após a morte, acredito em famílias que vão muito além do "até que a morte os separe", acredito em relacionamentos que se estendem a eternidade. Tenho motivos para crer que bons amigos como você e Gustavo um dia se reencontrarão, em um outro estágio de vida, e continuarão a conversa interrompida por essa fatalidade. Até lá, o difícil é conviver com a dor da ausência... mas a esperança no reencontro é um enorme consolo, pelo menos para mim.
    Fica bem,amigo, e que sua dor se transforme em força para auxiliar os familiares de Gustavo. Forte abraço.

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    1. Olá, Suzy

      Agradeço de coração o seu comentário e agradeço em nome dos super amigos dele que o conheciam há muito mais tempo. Realmente nessas horas ficamos sem palavras...

      Eu acredito fielmente nisso e fico muito feliz de saber que não sou o único. Eu nunca tive muito tempo pra pensar exatamente no que se baseia esse mistério, mas foi a partir do momento em que eu enxerguei o sofrimento dos amigos dele mais próximos, que percebi que existe uma ligação muito forte entre os que permanecem aqui e os que partem... Não é possível acreditar num ponto final. Embora eu não tivesse uma amizade muito próxima a ele, esses meses serviram para, em meu subconsciente, saber algumas coisas sobre sua pessoa... Por exemplo, tenho uma amizade mais próxima a uma ex-namorada dele (namoro esse que descobri na quinta-feira conversando com a garota.) e nesse papo eu descobri mais um pouco. Também vi o Will, meu amigo mais próximo, ficar aéreo, desligado, pela primeira vez. É por essas e outras, além do fato em si, que tomamos a dor de uma perda.
      Obrigado pelas palavras, Suzy. É bom saber que podemos contar com pessoas que não tem relação nenhuma com o acontecimento e mesmo assim estão presentes para nos ajudar. Um abração.

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  3. Sentimentos que momentos como esse produzem em nós independem de uma amizade próxima, pois projetamos para nossa realidade, imaginamos como seria doloroso perder alguém querido. Você e Gustavo não eram íntimos, mas ele era um bom amigo de amigos seus... o que você sente é empatia, e isso é nobre. Já escrevi sobre o assunto em mais do que uma situação, numa delas relatei uma sequência de tragédias envolvendo vizinhos e amigos meus, em diversos graus de intimidade. O sentimento de impotência é o mesmo, pois nos vemos pequenos e indefesos diante do temível monstro "morte". Feliz de quem tem fé e consegue ver além do fim inesperado, um recomeço ensolarado. Imagino que seja algo assim, um caminho interrompido, mas que segue mais belo ainda... do outro lado! Bom fim de semana pra você.

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    1. Suzy, você definiu exatamente como eu me sinto. A empatia está presente justamente quando o caso se afasta. Em muitas vezes ouvimos aqui e ali no jornal sobre mortes nas capitais, por exemplo, pessoas inocentes. Afastamo-nos ao máximo desses casos, mas ainda assim sentimos como seria se a perda fosse conosco. É ainda mais forte quando ocorre em nossos círculos...
      Aos doze anos eu condenava totalmente o ditado "Para morrer basta estar vivo". Era tão óbvio que não precisava ser dito... oras! Mas então um dia percebi o sentido do ditado. Não há qualquer outro fator que favoreça a morte em detrimento de outros que não. Simplesmente não basta estar vivo e ter uma má alimentação, por exemplo. Um acidente fatal pode levar quem segue uma boa alimentação. Portanto a condição única para a morte, é a vida...
      Tenho esse mesmo pensamento: o caminho não foi interrompido.

      Um bom final de semana pra você também e obrigado.

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  4. Bonita e dolorida crônica, Fellipe, mas dizer o que numa hora dessas? É tão complicado, parece que tudo não passa de chavões, mas lembrei de algo e deixo aqui pra você, pra mim serviu muito.

    'Leo Buscaglia serviu de jurado num concurso de histórias infantis e se encantou com o relato de um garoto de seis anos que tinha um vizinho idoso, cuja esposa havia falecido recentemente. Ao vê-lo chorar, encolhido no quintal, o menino pulou o muro e simplesmente se sentou ao lado dele.

    No dia seguinte, a família recebeu um buquê de flores com o agradecimento comovido do vizinho.
    Quando a mãe perguntou ao menino o que havia dito ao velhinho, ele respondeu:

    -Nada. Só o ajudei a chorar.'

    Daqui:(http://taisluso.blogspot.com.br/2011/12/arte-de-consolar.html)

    Um abraço, amigo! Fique bem.

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    1. Olá Tais. Um ótimo exemplo da situação esse texto... E muito bonito. É exatamente o que posso fazer pelos mais próximos dele. Eu estou aqui para apoiá-los e chorar com eles. Farei o que for preciso nesse momento de tristeza... Cada um tem em seu peito os momentos que marcaram sua memória e isso é a riqueza que cada um tem. Caminho ao lado deles para mostrar o bom dessas lembranças e alertá-los de como o garoto se sentiria vendo-os homenageá-lo com os lindos relatos de seus sentimentos como os que li no facebook.

      Obrigado pelo texto. Um abraço e bom final de semana!

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  5. Cheguei aqui numa hora triste.
    Um grande abraço

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    1. Infelizmente, meu amigo. Mas bons momentos virão.
      Abraço!

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  6. Vim aqui mais cedo e resolvi deixar para responder após digerir, processar, pensar no que dizer.
    Muito triste a morte de uma criança, de um adolescente, vidas tão pouco vividas. Muita tristeza para os que ficam, parece-nos mais natural e portanto mais previsível perdermos os mais velhos. Mas tb é mto triste perdermos os mais velhos, eles são muito de nós e nós somos muito deles e é isso que penso em relação a morte, penso que nunca se deixa de existir enquanto nosso nome for dito, nossas histórias contadas, nossa partida sentida, a família, os amigos, amigos de amigos, pessoas que nunca ouvimos falar, sentidas por nós, falando em nós, pensando...
    O carinha da padaria ou da farmácia, ou que estudou com ele no Jardim de infância, uma menina que planejava falar com ele tda vez que o via passar, toda vez que lembrarem dele, fotos, escritos, objetos, pessoas de tda parte sabendo ou não que ele não está mais nesse plano o manterão vivo.
    Se há reencarnação, se ele tinha um missão e cumpriu, não sabemos, sabemos que Gu existiu e sempre estará no coração de quem quis bem a ele e na memoria de quem com ele cruzou. Força para a família e amigos!
    “Esta vida é uma estranha hospedaria,
    De onde se parte quase sempre às tontas
    Pois nunca as nossas malas estão prontas,
    E a nossa conta nunca está em dia”
    Mario Quintana

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    1. Tina, agradeço pela sua visita e por suas belas palavras onde podemos enxergar todo sentido. Realmente parece mais previsível que os mais velhos vão primeiro, mas é tão doloroso quanto. Infelizmente nos choca bastante ver uma vida interrompida tão no começo... O que transtorna a perda é a incerteza do depois. Por mais que queiramos acreditar que existe uma continuação, não é uma verdade transparente. Nunca nos foi dito de fato.

      Lindos versos do Quintana. Sempre muito bem colocados por você.
      Mais uma vez obrigado pelas palavras e pela consideração. Gosto de vê-la por aqui.
      Um abraço!

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  7. Um Grande texto Luís. Senti isso há pouco tempo. E sei como é ruim. A vida é uma faixa de mistérios!!!

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    1. Sinto muito por sua perda, Vanessa. Agradeço sua presença e seu elogio ao texto, de coração.
      Estamos sujeitos as estranhezas disso aqui. É como se uma bomba-relógio estivesse acoplada a cada um de nós sem que pudéssemos ver a regressão exibida no visor... Só escutássemos o 'pi-pi' a cada segundo passado... O bom é que nossos ouvidos tem tamanha distração e quase não escutam o som... Em um momento ou outro é que voltamos à escutá-lo... Na maioria das vezes quando a bomba alheia próxima a nós já estourou.

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Obrigado!




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