terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O pedaço de ontem existe. E o de hoje?



Muitas vezes o tempo passa e nem nos damos conta de que não conhecemos algum lugar próximo de nós. Foi assim com o Hotel Palace de Ribeirão Preto, localizado no Quarteirão Paulista, ao lado do Theatro Pedro II. Hoje os andares do que foi um movimentado hotel do centro, abrigam o trabalho de muitos artistas entre outros. Foi maravilhoso pisar naquele lugar. Vai aí um pouco da história.

Fonte: Quarteirão Paulista
        No ano de 1926 o prédio é inaugurado como Central Hotel. Seu dono? Adalberto Henrique de Oliveira Roxo, nascido em 1883, tendo falecido em 1943 em um sanatório da cidade de São Paulo. Alguns anos depois da construção do hotel, a Companhia Cervejaria Paulista o comprou, mudou seu nome para Palace Hotel e deu início a construção do mais famoso teatro da cidade, Theatro Pedro II, e também ao prédio conhecido como Edifício Meira Júnior, que hoje abriga o Pinguim, famoso pelo melhor chope do país. Essas três construções formam o Quarteirão Paulista.
Fonte: Quarteirão Paulista

                                                                  
Quarteirão Paulista. Na ordem da esquerda para a direita: Edifício Meira Júnior, Theatro Pedro II e Palace Hotel (CCP)

 
Amplie para ler. Fonte: Revista em Arquitetura e Urbanismo (online) USP

  Em 1930 foi inaugurado o teatro e por cinco décadas ele foi a referência cultural da cidade. Entre as décadas de 50 e 70 o subsolo ficou conhecido como Caverna do Diabo, onde aconteciam bailes carnavalescos. Fora da época do carnaval, o pavimento servia como sala de jogos. Em 1980 um incêndio destruiu grande parte do lugar enquanto era exibido o filme “Os três mosqueteiros trapalhões” e em 1996 ele foi reinaugurado depois de passar por rigorosos processos de modernização e restauração. O lustre do teatro representa uma gota d’água em referência à tragédia ocorrida.          Minha passada no Centro Cultural Palace não foi daquelas que se faz com muito registro. Tirei poucas fotos, mas em minha memória sempre haverá recordação do dia. Andando pelas  escadas ou pelos corredores, senti-me vivendo a história. É muito bom. Era a noite, não havia muitas pessoas visitando os andares superiores, então alguns salões estavam escuros. Minha amiga e meu amigo não estavam muito encorajados, mas eu estava muito afim de desbravar até os locais mais escuros!
Vagões culturais, Teceiro pavimento- Exposição de fotos voltadas ao tema Moradores de Rua

Quadro da exposição.

Porta de um dos quartos do hotel.


Havia no primeiro piso um guarda-roupa com um espelho num salão sem iluminação. Feita a aproximação sensata, olhando de um lado a outro, pé a pé, iluminamos com celular um local onde estava escrito que aquele móvel datava do período de 1926 – 1929 e pertencia a um dos quartos do hotel. A sensação parece boba pra algumas pessoas, mas é muito diferente estar próximo a um objeto que outrora foi usado e reusado por hóspedes do passado... 
O que mais me deixou pensativo foi a questão do “é e será história”. Um dia andamos sobre um chão que mais tarde poderá ser lembrado como histórico. Nossas roupas, nosso jeito, costumes serão vistos como uma característica geral, estaremos em livros ou em sites de moda. Sabemos hoje definir exatamente o que é uma roupa de época, por exemplo. No futuro também saberão nos definir através de todas as marcas que deixarmos... 
Pensamos na história sempre como nossa antecessora, entretanto raramente percebemos o quão histórico somos! Uma prova dessa distração é que estamos em constante evolução arquitetônica, por exemplo. Nós deveríamos preservar mais, cuidar mais, se importar mais. Deveríamos questionar a nós mesmos: qual o pedaço de nossa história que estamos guardando para a posteridade? Estamos esperando que tudo se faça sozinho e de forma natural ou podemos colaborar pro futuro em inúmeros pontos?


          Acredito que se sentir parte da história seja um passo fundamental para que relevemos várias questões que possam refletir no futuro. E para que tudo isso comece, nada melhor que procurar o desconhecido para conhecer, dar uma chance para coisas que sempre estiveram ali, mas nunca foram exploradas. Sempre pode haver uma história incrível para mudar totalmente seu repertório cultural.

          Vale a pena.

                                                      Luís Fellipe Alves  




Se quiser +  


 

10 comentários:

  1. História e memória! Assim se faz a vida. Saímos de nossa cidade para visitar o antigo, o belo, o histórico de vários lugares. Vamos pra lá e outros vêm pra cá, para nossa cidade, para nosso país. Ver os museus, arquitetura, a vida passada; vamos à procura do que outras gerações nos deixaram, do que foi a vida até ali. Agora, resta a nós deixarmos.
    Como você disse, muitas coisas estão ao lado, históricas e ricas de cultura. Antiquários, ver o passado através de objetos menores, também.
    Passeio pela minha cidade e descubro que não vi tudo, ou que pouco vi. Que pouco desfrutei. Estou olhando mais para isso, agora. Por isso passeio pelas ruas olhando o mundo que vivo.

    Gostei muito dessa nova postagem, variada, e que indiscutivelmente ficamos a pensar.
    Nós somos a história, seremos o passado das futuras gerações.

    Beijos, amigo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tais, é isso mesmo. Quando paramos para notar verdadeiramente, percebemos o pouco que vimos. E é a cada oportunidade que temos de revisitar, que observamos ainda mais e descobrimos novas coisas.
      É uma boa sensação.
      É sempre muito válido ficar atento a isso. Temos uma riqueza bem próxima e muitas vezes passa-se despercebido. É uma perda valiosa uma vez que é aos poucos que se enriquece.


      Fico feliz que tenha gostado, achei muito legal escrevê-la também e poder mostrar um pouco da história da minha cidade.

      Beijos!

      Excluir
  2. Maravilha de post!
    Qd fui a São Paulo e postei sobre tudo que vi e o muito que não consegui ver, nos feedback´s percebi que muitos moram lá, alguns desde sempre e nem passam perto de tda aquela efervescência histórica e cultural.
    Eu gosto de pontos turísticos ou com histórias pitorescas do povo local, tanto de onde moro, quento por onde vou.
    Lugares, assim como os livros, que comentei outro dia aqui, deviam ser visitados por nós em mais de uma fase de nossas vidas, para resgatarmos memórias, relermos, associarmos novos conhecimentos, pessoas, sentidos e sentimentos a tudo, afinal o rio não é o mesmo e nós não somos os mesmos, desperdício não aproveitar vários banhos, várias entradas e saídas.
    Cabeça, olhos, coração são como para-quedas, só funcionam abertos.
    Obs: Adoro ver fotos antigas e novas de lugares ou pessoas, acho o máximo. Viajo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tina, me desculpe por demorar postar e responder seu comentário!

      Uma pena que muitas pessoas vivam tão longe dessa realidade linda que as rodeia. Seja por falta de tempo ou desinteresse, é uma perda gigantesca. Eu passava próximo do CCP várias vezes, mas não o conhecia como um centro cultural. Sabia que havia sido um hotel, mas não havia muita informação sobre ser um lugar para visitação. Achei maravilhoso...

      Devemos sim visitar lugares em várias fases de nossa vida, assim como a leitura a obras. Só que diferentemente dos livros, onde somos os únicos a mudar e mudar nossa visão de uma coisa que permaneceu escrita sempre da mesma forma, os lugares também mudam... Desde lugares comuns, tipo a casa da vó... Vivi lá minha infância, o sofá marrom, paredes brancas, TV de tubo... Então o tempo passa, o sofá fica branco, as paredes verdes, a TV já é melhor... E a gente lembra da infância e das mudanças que nos acompanharam... Sem comentar quando você pega as fotos de quando nem tinha nascido, vê seu avô e sua avó na porta de casa, um kombi na garagem e aquelas roupas de anos 80...!

      Somos parecidos quanto a fotos! Amo também apreciar as imagens do que foi e do que é, acho fundamental preservarem isso. É uma das coisas que devemos deixar para a posteridade. Hoje é muito mais fácil registrar tudo de variadas formas. Temos essa riqueza.

      Um abraço!

      Excluir
  3. Sem essa de se desculpar, já ouviu dizer que aos amigos não precisamos dar explicações e os inimigos não aceitam?
    Achei que vc tinha tomado o suco de maracujá todinho dessa vez, sem derramar um gota e estava com polpa dobrada e sem açúcar, um cronista apagado...rsrsrs
    Perfeita sua pontuação da diferença dos livros e dos lugares, é bem isso mesmo. Poética a descrição da casa de sua vó, é a mesma do frango essa do sofá marrom?
    Que vivamos e revivamos por dentro e por fora, todos os dias, pois como disse Niemeyer: "A vida é um sopro".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. hahahaha ainda não havia ouvido essa!
      Ah, essa semana foi de uva e morango, apenas... Não tomo de maracujá desde então, mas não pelo acontecido, só porque não foi feito mesmo.

      Sim, sim a mesma avó do frango! rsrs

      Esse é o melhor a fazer uma vez que nós determinamos o aproveitamento de nossas vidas. E belas palavras, amiga, tanto suas comos as de Niemeyer, o eterno...

      Excluir
  4. Olá Luís,

    Que bacana esse seu cantinho, feito com capricho e bom português! Amei conhecer um pouco da história desse prédio histórico. A curiosidade traz aprendizado. Adoro Ribeirão Preto! Tenho parentes queridos aí. Obrigada pela visita ao meu blog.

    Um abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Seja bem-vinda ao blog, Rovênia!

      Agradeço as belas palavras sobre o blog e fico feliz de ganhar uma nova leitora!
      Que legal, então você conhece o lugar que mais amo rsrs
      Adorei seu blog, estou lendo seus posts e conhecendo um pouco mais de lá!

      Abraços.

      Excluir
  5. Luís Fellipe, eu não poderia deixar este texto passar em branco, sem comentá-lo, dado o valor cultural que ele agrega! Não o fiz antes devido aos compromissos de fim de ano, por sinal, estou repetitiva nessa "desculpa" rsrsrs

    Então, sobre o texto, adorei o tour pelo Palace Hotel de Ribeirão Preto! Nunca estive na cidade, mas foi como se de repente aportasse aí... Muito interessante tudo que você relata neste post, e especialmente sua reflexão a respeito do "sermos históricos". Sabe que penso muito nisso? Acredito, inclusive, na importância de registros, sejam eles documentos, diários, blogs, fotografias... tudo isso irá contar nossa história daqui a alguns anos e seremos os protagonistas de algo: o enredo nós decidimos hoje, neste momento! De fato, o chão que pisamos hoje contará alguma coisa amanhã... Somos parte essencial de um mundo que gira e se transforma, a omissão é certamente a mais pobre das escolhas que poderíamos fazer! Bom mesmo é ter parte ativa nas mudanças, na vida que se renova, no mundo que se reconstrói e se reescreve todos os dias!

    Amei a postagem, você tem se superado a cada dia! Um abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Suzy, fique tranquila, estou aceitando as desculpinhas e fingindo que está tudo bem rsrsrs Brincadeira! Sei como é, chega o fim de ano e o tempo parece voar pro final e as tarefas dobrarem...

      Que legal saber que deu pra fazer uma visitinha à cidade pelo texto! Quanto a esses registros, até nossos blogs entram nessa onda, não? Estão aqui resistindo aos janeiros, mais especificamente o de vocês que já juntam mais idade que o meu... Estamos guardando parte de nossa história! Estamos produzindo cápsulas, mas que diferentemente daquelas que são enterradas a fim de serem abertas depois de 10 anos, ficam abertas eternamente... Ou enquanto o blog durar!

      Fico muito feliz por ter gostado do post e agradeço pelo reconhecimento!
      Abraço.

      Excluir


Obrigado!




Ir para o Topo