quinta-feira, 2 de maio de 2013

Desabafo de estudante




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Será que eu preciso disso tudo?
Não é por nada não, mas pra quê a trigonometria e todas as suas dificuldades? Não entendi exatamente a razão de razão, e sempre me enrolo quando aparece um x e um y na mesma equação. Falando em equação, por que diabos tudo na matemática cai nelas? E a tal da função com os planos cartesianos e seus pontos? Reta, parábola, hipérbole! Progressão aritmética. Nome assustador, não? Pior é quando ela vira geométrica. E nem me fale nos pontos notáveis do triângulo. Quem foi que perguntou onde é o baricentro dele? E o pior é quando vem o tal do logaritmo. Lógue de xis na base bê dividido pela raiz cúbica de logue de z na base marte. Mais ou menos assim. Quando você pensa que já viu de tudo, aparecem as fórmulas mais loucas possíveis como hipotenusa ao quadrado é a soma dos quadrados dos catetos. Quem é essa hipotenusa pra ser tão difícil? E quando você encontra um exercício do tipo que nem a pessoa que criou consegue resolver? “Encontre o x” é tudo o que tem escrito no exercício. Pra quê complicar tanto, matemática?
E você, Língua Portuguesa? Achou que ia escapar? Vem com o tal do Trovadorismo e as cantigas de amor, extremamente complicadas! Tudo bem que as cantigas de escárnio são engraçadas, mas esse galego-português é difícil!... Não demora muito pra vir o tal do classicismo e as obras do seu Camões. Gigante Adamastor? Que viagem! Pior ainda é o bonitão morrer de amores pela bela ninfa do mar, Tétis! Antes isso do que toda a linguagem rebuscada do barroco, né? É tanto detalhezinho que cansa. Que Gregório de Matos me perdoe! Ainda bem que logo vem o arcadismo e traz o tal do “Inutilia Truncat” que mais ou menos faz uma crítica aos excessos do barroco... Loucura mesmo é a tal da gramática e seus porquês. Falando nisso, pra que complicar tanto não hora de usar um porquê? E essas frases com sujeito indefinido, indeterminado, não encontrado, transferido pra Sibéria? “Choveu hoje.” Quem choveu? Chuvar? Não existe! Mas choveu existe... 
Alguém ouviu falar em biologia? A tal da briófita não tem vasos, por isso não cresce muito. Mas que nome é esse?  E quando você resolve confundir hematose com hematopoese e não sabe qual delas é troca gasosa do sangue e qual é a produção de sangue na medula? E pra quê tanto nome de osso e músculo? O sistema digestório é tão longo que dá até preguiça. Quando a célula resolve fazer mitose, pode sentar. Lá vai interfase, prófase, metáfase, anáfase e telófase. O ciclo de vida das angiospermas não poderia ser mais complicado, também. O tal do glóbulo branco é uma graça. Se estiver baixo, faltam soldadinhos do corpo. Se estiver alto, você está doente... 
Mas a física supera na loucura. De repente a tangente do gráfico da velocidade pelo tempo vira a aceleração de um corpo! Isso quando não resolvem colocar vinte pilhas em série e pedir pra calcular não-sei-o-quê de não-sei-aonde, que tem que dar a diferença de potencial elétrico. Aí quando você está tranquilo aparece o terror de mudanças de estado, o tal do gelo dentro do copo com água e os cálculos pra transformar Celsius em Fahrenheit. Pra ajudar, tem sempre um “despreze a dilatação do recipiente” que você nem fazia ideia que existia... 
Quando o carbono resolve fazer suas quatro ligações, sai da frente. Ninguém segura a química orgânica e suas complicações. A tabela periódica vira um labirinto e você dificilmente encontra o número de elétrons na ultima camada de valência do Cálcio. Pior é quando confunde Fósforo com Flúor por causa do maldito símbolo F. A coisa fica estranha quando você escuta “Cálculo Estequiométrico” pela primeira vez. Que terror! Balanceamento de equação é uma maravilha. De repente tem dois oxigênios de um lado e trezentos do outro... Qual a razão do desbalanceamento? Complicar a vida, só pode!
Mas nem tudo está tão perdido. É o que você pensa. Aí chega a história da Grécia toda cheinha dos detalhes. Esparta, Atenas e suas diferenças bobas. Roma é menos complicada. Ainda bem! Pior é quando vem a idade média e as historinhas de bruxa. A igreja e sua mania de vender cartas de indulgências pra promover o perdão. Quando não, inventava de vender pedaços da cruz de Jesus. Que espertinha... Depois surge a burguesia. Aí o assunto dá sono. Burguesia bancava a festa do rei para os nobres e para a igreja. Não eram lá aquelas coisas... E eu é que tenho que ouvir toda a história de abuso do poder. 
Na geografia a coisa é clara. Mas só quando o assunto é regionalização. Norte, Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Não me vem com Ásia de Monções e nem blocos econômicos. Falar de região metropolitana, metrópole, megalópole, megacidade é conseguir um nó no cérebro. A migração da cafeicultura que encheu o sudeste de pessoas e o povoamento do sul que serviu como uma proteção ao território, que tinha fronteiras vulneráveis... Sentiram o drama? Faz mais de cem anos isso, poxa. Drama mesmo é quando chegam os planaltos, planícies e depressões... Meu Deus! 

Estudar, estudar, estudar.
É tanta coisa, que não cabe em “coisa”. 
Mas a verdade é que sem tudo isso, eu não seria nada. 


Luís Fellipe Alves

14 comentários:

  1. Que boa e divertida crônica!
    Tão questionável tantos conteúdos, por outro lado acho que somos um pouquinhos deles mesmo sem compreendê-los em toda sua profundidade.
    Questiono a maneira que temos que aprender tudo isso. Será que não poderia ser diferente?
    Beijo

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    1. Ana Paula, isso que disse faz todo sentido. Realmente, todo esse conteúdo faz parte de nós e do que vivemos. Acabamos que por nos especializar em uma área em que algum desses se destaca mais que os outros, mas um dia passamos por esse "geral".

      Um ótimo ângulo para se olhar. Tudo isso tem sido aprendido de uma maneira um pouco fechada, restrita, única. O estudante acaba desenvolvendo certo desinteresse, muitas vezes, por estar cansado. Por experiência própria, que ainda vivencio todos esses conteúdos por ser vestibulando, posso dizer que uma adaptação melhoraria bastante. Infelizmente você precisa provar seu conhecimento em um único dia, que pode ou não ser um bom dia...

      Beijo, obrigado por passar por aqui!

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  2. Não seriamos nada, nadica de nada rs rs.
    Um grande abraço e parabéns pelo texto.

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    1. Dependemos disso, não é mesmo?
      Obrigado!
      Abraços.

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  3. Fellipe:

    Confesso que fiquei devendo muito à matemática e suas torturas para desenvolver meu raciocínio. Desenvolvi o suficiente sem me matar em suas questões.

    Quando a coisa começa a enrolar demais, sem motivo algum para meu desenvolvimento, deixo passar antes de pirar. Sempre desenvolvemos o lado que mais gostamos. Tudo que você narrou, é verdade, e muitas vezes um empecilho, algo que tumultua nossas futuras escolhas. Mas isso já aprendi há muito tempo, resolvi simplificar as coisas e a não querer entender tudo, mas o que me agrada, o que me dá prazer e o que me faz crescer como ser humano. E não tenho problema algum em dizer: não entendo disso; não tenho tal resposta para isso.

    A vida é muito curta, por isso gosto imensamente da filosofia – procuro nela o sentido da minha, da nossa existência. Os outros que calculem as retas, parábolas, hipérboles e encontrem todos os xis das questões mais complexas desse mundo! rsrs Há quem goste!

    Excelente esse seu texto! Escrito com muito humor, mas cheio de verdades.
    Beijo.

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    1. Tais, matemática é um pouco assustadora! rsrsrs Mas eu amo e isso não tem explicação. Ninguém acredita que ao mesmo tempo em que quero prestar exatas, gosto de caminhar pelas humanas na área linguística.

      O problema é justamente esse: nós acabamos por afunilar nosso caminho um tanto quanto tarde. Precisamos passar por tudo (e mais de uma vez) para assim saber o que queremos. Por outro lado, passar por tudo é totalmente válido, pois só odiando uma matéria para saber que aquela área não vai seguir!

      O que você disse é um ótimo exemplo de afunilamento. Gosta da área humana no que diz respeito a filosofia e às questões existenciais enquanto em volta de nós existem os que estão por aí resolvendo os cálculos mais cabulosos. Não é necessário que saibamos tudo e, com certeza, é sempre válido buscar o aprofundamento naquilo que mais interessa.

      No meu caso é assim: gosto da matemática, da física, das linguagens e códigos, da filosofia, pelas mesmas razões que você (sou fascinado em "O mundo de Sofia") e de sociologia graças às maravilhosas aulas que tive no ensino médio. (Você pode notar um pouco da influência da sociologia em mim nas postagens que marco como "Sensos".)

      Agradeço sua visita e seu lindo elogio!

      Beijos.

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    2. Sabe, Fellipe, temos visto que as faculdades estão cheias de alunos que desistem no primeiro ou segundo semestre exatamente por não saberem, no momento, o que realmente gostariam. Então você vê estudante largando a faculdade de Direito e entrando para a Medicina; você vê estudantes de Exatas passando para as Humanas! Ou pegam Odonto por que não passaram em Medicina. Ou se encaminham para Enfermagem, Jornalismo etc. Contudo, vejo que o problema teria de ser visto mais no começo... Os professores teriam de ver a aptidão, a tendência do aluno e puxá-lo, dar as matérias mais específicas para o encaminhamento, o seu desenvolvimento certo. Por que forçar tanto e dar uma dose única a alunos diferentes, como se todos fossem iguais? Será certo? Não será desestimular? Atravancar o caminho? Nosso ensino está muito longe de figurar na lista dos melhores países, teria de passar por muitas reformas. Isso todos estão carecas de saber. Nos Estados Unidos o 'encaminhamento' do aluno é bem o diferente, tenho parentes que estudaram lá.

      Beijo, Fellipe!

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  4. Maravilhosa narrativa essa sua.
    O desfecho então, a azeitona da pizza portuguesa.

    Queria na sua idade ter essa visão, essa compreensão da não compreensão.
    Baixou Caetano em mim...rsrsrs

    Lembrei de tanta coisa enquanto lia, desde um desenho clássico e antigo da Disney onde é explicada a beleza e utilidade da matemática em cada piscar de olhos nossos, de um texto sobre humanas e exatas que é bem pertinente ao seu momento universitário e de um post que finalizei hoje e programei para semana que vem, sobre a importância (ao meu ver) da letra cursiva.

    Segue trechos do texto de Rosana Hermann, que sua narrativa me fez lembrar:
    "O homem passeia em Marte com seu robô e envia imagens ao vivo, com exatidão tecnológica surpreendente. Aqui na Terra, clona-se seres vivos e as esperanças de cura se renovam com o desenvolvimento de pesquisas com células-tronco.

    O tripé do conhecimento desenvolveu pernas longas e bem torneadas para as exatas e biológicas. Infelizmente, com o crescimento das outras duas, a terceira perninha, as ciências humanas, que incluem coisas como a filosofia e a ética, ficou ali, atrofiada e penduradinha como um bilauzinho no inverno polar. E isso, tem tudo a ver com a crise humana do mundo atual.

    Estamos todos mais grotescos, mais rudes, mais estúpidos. Somos bem informados mas nos tornamos ignorantes. Temos automóveis com GPS mas dirigimos como trogloditas neuróticos. Viajamos pelo mundo inteiro mas temos preguiça de procurar o baldinho de lixo para jogar o papelzinho da bala.

    A falta de finesse é geral. Isso tudo, se não for coisa do demo, se não for a prova definitiva de que o projeto ser humano não deu certo, só pode ser atribuído à falta de atenção que demos às ciências humanas, justamente aquelas mais sutis, que não dependem de equações, que não se baseiam nas medições matemáticas e não podem ser testadas em laboratório.

    O vértice vicioso que nos suga ralo abaixo passa por todas as estatísticas de descaso com as disciplinas que podem desenvolver o refinamento das pessoas.

    Não existem empregos para filósofos, sociólogos, pedagogos, historiadores, cientistas sociais. E, por não ter mercado, os estudantes não optam por estas matérias na hora de fazer o vestibular. Como a procura é pouca, há poucos cursos e etc e tal.

    O que fazer?...
    Temos que voltar até a bifurcação onde tomamos a trilha errada. Nesta trilha, ansiedade e depressão nos matam, o estresse e a má alimentação engordam, a ira destrói toda nossa capacidade de sentir e amar.

    Eu, lentamente, comecei a voltar. E adoraria contar com todas as pessoas de bem, os irmãos de fé, os companheiros de jornada, os camaradas de ideologia, os humanos de coração, para um grande encontro de volta naquele velho ponto da bifurcação.”

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    1. Tina, excelente citação. Não conhecia esse texto e adorei a forma como ele tangenciou minha postagem de hoje. De certa forma, biológicas e exatas têm se destacado grandemente em razão dos cursos mais procurados que têm sido medicina e engenharias. Cada uma das três áreas tem uma importância diferente de impacto social e o texto da sra. Hermann deixou isso bem claro, inclusive na utilização de algumas profissões-exemplo das humanas: sociólogos, filósofos, linguistas, etc. O problema com essas profissões é justamente a limitação de mercado, como também observado no trecho que você deixou no comentário. Eu entendo essa camada jovem que optou entre biológicas e exatas, porque faço parte dela... De certa forma minha escolha está sim direcionada ao campo de mercado. Mas não somente a isso. Embora eu tenha um interesse extremo por várias áreas de humanas, eu somei o meu grande interesse por engenharia - porque sou desenhista projetista - ao mercado que, por enquanto, está positivo. Não posso garantir que até o final do ano eu não mude de ideia. Mas por enquanto enxerguei o ponto onde a vantagem se sobressaiu.

      Gostei muito da solução, mas ainda estou pensando em como seria possível colocá-la em prática.

      O desenho da Disney que citou é aquele do pato Donald, Donald no país da matemágica?
      Se for, é excelente! Assisti no segundo ano, há uns três anos, para fazer um trabalho.

      Abraço e obrigado pela visita e pelo presente! Texto e comentário excelentes.

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    2. Sim, é esse o filme da Disney. Fantástico né?
      Na busca para saber se esse era o nome do tal, achei um vídeo interessante da Pixar sobre o uso da matemática em suas criações:
      http://www.youtube.com/watch?v=XzgAhqokAIg

      Eu é que agradeço pelo seu texto que desencavou tdas essas reflexões e outras lembranças :)

      * Me formei em Letras, quase faço Artes plásticas e sem emprego, carreira, eira nem beira(risos) acho que faria uma escolha mais exata se pudesse voltar no tempo.

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  5. Ufa... amigo! Já passei por isso e lamento que os jovens ainda tenham um currículo de ensino médio tão recheado. Não é necessário tanto e a grande discussão dentro do Ministério da Educação é a reforma curricular. É preciso mais conhecimento condensado, um currículo mais adequado, menos disciplinas. Vamos aguardar! Mas, enquanto isso, o jeito é estudar e estudar! Boa sorte! :)

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    1. Rovênia, é uma loucura mesmo! Felizmente o ensino médio já concluí em 2011, mas esse é o meu terceiro ano como vestibulando, e segundo ano como vestibulando fora do ensino médio. Acabamos vendo tudo de novo, claro, mas estamos livres, pelo menos, das pressões das provas de cada professor. O curso pré-vestibular é mais tranquilo nesse ponto, mas exige um espaço na mente ainda maior. Temos um ano para aprender o que aprendemos em três no EM.
      Concordo com você. Inclusive pela tamanha interdisciplinaridade que existe hoje. Os vestibulares já não se separam exatamente como o EM é separado. O enem é um grande exemplo disso.

      Muito obrigado!
      Abraço.

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  6. Luís estou impressionada com o seu talento! Já ganhou mais uma seguidora rs....

    Realmente, tanto estudo deixa a gente maluquinho da Silva.... E acho que não foi à toa que você começou pela Matemática. Seu desabafo de estudante foi brilhante!

    Te convido a visitar o meu blog. Lá eu posto algumas poesias e textos que escrevo e se você gostar de Arte será ainda mais bem vinda sua visita:

    http://www.joaninhatricoteira.blogspot.com.br

    e parabéns pelo talento ;)

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  7. Luís Fellipe,

    Com este texto, você me proporcionou a oportunidade de voltar lá nos tempos do Ensino Médio, quando tinha os mesmos questionamentos seus, mas também a mesma conclusão: sem essa "coisarada" toda eu não seria nada!

    Tenho completo amor pelo conhecimento, nas mais diversas áreas! Não seremos bons em todas as coisas - pelo menos, não de uma vez só. Temos nossas preferências, que fazem para mim, por exemplo, digerir com mais facilidade e interesse a História, as Línguas em geral e até mesmo a Biologia, enquanto a Matemática e as demais exatas continuam sendo um osso duro de roer - mas que teve de ser roído no Ensino Médio!

    Logicamente, não faço uso hoje de tudo que vi em tempos de estudante do EM, mas sabe que, quando necessário, ainda me lembro de alguma coisinha aqui, outra ali? Isso mostra que nada é em vão e, se um dia eu me cansar de um rumo que tomei - o que realmente aconteceu comigo - e inverter radicalmente minha escolha, terei uma boa base em cima da qual construir.

    Ótimo texto, bem-humorado e gostoso de ler! Abração pra você.

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Obrigado!




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