segunda-feira, 24 de junho de 2013

Lugares

Fontes: I, II, III e IV


Desde quando eu era apenas um garotinho, que mal sabia o que significava geografia, já me posicionava sentimentalmente pelos lugares que passei ou pelos que sonhei conhecer. Pra começar essa história, que fique registrado que sou mineiro das bandas do triângulo, na terra do Nelore, Uberaba.
Tendo emigrado dos chãos mineiros, com pouco mais de um ano de idade, deixei grande parte da minha família por lá. Pois enquanto menino, ao visitar Uberaba, via toda a família ali reunida, os primos tão próximos, e  logo me sentia distante de tudo e todos. Nascia em mim uma vontade imensa de voltar para a terra natal e estar próximo daquele grande circulo familiar, do qual me sentia excluído.
Com o passar dos anos, entendi que eu estava enraizado na Califórnia brasileira e que nela funcionava minha vida. Chegou o dia, então, que conheci São Paulo mais detalhadamente. Havia tanto entretenimento, tanto brilho, tanto canto bom a ser visitado naquela cidade. Eu já não queria mais Ribeirão.
- Mãe, quero morar em Sampa!
- Tá louco, né? Aquilo lá é um caos.
Por um tempo, nem dei ouvidos. Mas bastou crescer mais um pouco para enxergar como a coisa funcionava por lá. A falta de segurança, a poluição, as enchentes, o estresse. Ih, desisti.
Ribeirão Preto voltou em cena. Mas, em poucos anos, senti a cidade ter seus problemas amplificados, de forma que o trânsito, que não era pauta frequente, tinha se tornado uma. A poluição do ar graças à cana, o estresse, a segurança falha e o inchaço urbano também são bons exemplos. Veio a paixão pelo sul.
- Mãe, vamo pro sul?
- Tenho uma prima que mora lá...
- Dizem que é muito bom.
A fase Sul não durou tanto. Logo em seguida apareceram os vestibulares. Em Ribeirão não havia minha opção de curso. Eu era um vestibulando à beira de uma mudança radical de cidade, caso eu fosse aprovado. Uma das cidades-alvo era Uberaba. Quem diria... Depois da minha infância, nunca mais me interessei em morar lá, mas se fosse para ingressar na Federal do Triângulo Mineiro, não restavam dúvidas: eu iria!
Assim pensei quando fui aprovado na Federal de Ouro Preto: é pra lá que eu vou! Mamãe e papai, porém, foram inflexíveis em sua decisão: Não vai!... Foi uma terrível contrariedade. Já fazia até planos para visitar aquela cidade histórica linda. Foi tudo por água abaixo.
Hoje, continuo em Ribeirão.  Crescido, foi possível entender que não bastava apontar o dedo para o mapa e dizer: hasta luego! Depende de uma infinidade de coisas, inclusive do destino de nossas vidas pessoais, universitárias e profissionais. Mas tudo foi válido. Entre uma casinha histórica, uma marginal congestionada, uma universidade dos sonhos, uma paisagem sulina invejável, havia o sonho. E aí está o ponto importante.
Luís Fellipe Alves

15 comentários:

  1. Penso que ai esteja um dos pontos importantes.
    Sim o sonho nos move, nos alimenta por muitas vezes, apenas ele, como costumo dizer, sonhar com um barco é muito melhor as vezes do que tê-lo, assim como tantas outras coisas. Assim como, como o ser humano e o mundo não são práticos e objetivos, a realização do sonhos, com todos as dores e delícias há que ser vivida.
    Há quem aponte par o mapa e vá.
    Meu irmão, uma criança e adolescente sempre tão comedido, caseiro e acomodado, apontou o dedo para o mapa a partir de um certo tempo e para a realização profissional além dos lucros de toda capacidade de conhecimento e possibilidades, grudes, negativas, conselhos, receitas, previsões astrológicas, tarô e mandingas e se jogou e se joga, vive assim, vai de mala e cuia ou só de mochila nas costas e já passou frio, apertos, requintes, viu e visitou muitos lugares, viveu aventuras e roubadas e com elas aprendeu e ensinou.
    Quem disse que ser comedido e racional é mais vantajoso?
    E quem disse que viver assim se jogando, realiza a todos?
    Cada um na sua velocidade, indo ou vindo, sonhando ou as vezes sem sonhar, por conta própria, pelas vantagens e desvantagens dos que nos cercam, de onde estamos, das nossas condições financeiras, físicas, emocionais, podemos ser galinhas ou águias. Vc conhece essa paródia?
    Caso não conheça e queira, eu trago pra vc :)
    Abraço!

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    1. Seus comentários são sempre fantásticos! Colocando meu texto na balança e vendo que nenhum lado pende, senão o das condições! Não é mais vantajoso se jogar no mundo a ser mais conservador nesse ponto. Nem vice-versa. É uma questão pessoal, é uma questão de vontade, de desejos. O ponto importante é ter sonhado. Realizando ou não, aprendi muito. No caso do seu irmão, aprendeu bastante a cada passo que deu por aí. Já alguém que preferiu ficar onde estava, aprendeu alguma coisa também!

      Não conheço, não. Vou ali no teu blog pedir ela, porque demorei a respondê-la por aqui, né!

      Abraço!

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    2. Demorou um tantinho, mas cá estou com a história.
      Abço!
      A história conta que certa vez um camponês encontrou, caído do ninho, um filhote de águia e resolveu criá-lo junto com suas galinhas e tratava-o da mesma maneira que tratava as galinhas, dava a mesma ração jogada no chão, a mesma água num bebedouro rente ao solo e a águia cresceu se comportando como se galinha fosse.
      Certo dia, passou por sua casa um andarilho que, vendo a águia ciscando no chão, indagou:
      - Isto é uma águia?
      O camponês respondeu:
      - Talvez tenha siso, agora é uma galinha!"
      - Não! Uma águia será sempre uma águia, disse o moço e desafiou: Quer ver? Dito isso, levou a ave para cima da casa do camponês e elevou-a nos braços dizendo: - Voe, você é uma águia, assuma sua natureza. Mas a águia não voou, e o camponês disse: - Eu falei que o animalzinho virou galinha. No dia seguinte, logo de manhã, o moço inconformado voltou e eles subiram juntos até o alto de uma montanha. De lá a águia tinha um enorme vista, o sol, o céu azul, as nuvens, os campos verdes lá em baixo. O andarilho a deixou olhando para tudo e a ergueu dizendo:
      - Desperte para sua natureza, e voe como águia que és. A águia perfilou devagar suas asas e partiu num voo lindo, até que desapareceu no horizonte azul.

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  2. rsr, Fellipe, eu também já quis morar em vários lugares, mas chega um dia em que tudo isso passa e valorizamos muito onde moramos. Tem muita ilusão nisso. O melhor de tudo é onde está a casa da gente, o trabalho, o estudo. Onde estamos felizes. Ao ver fotos lindíssimas de aldeias, cidades europeias medievais, passei a sonhar, mas vi em fotos! Sente numa praça e passe a observar a rotina de qualquer cidade: são todas muito parecidas. Hoje estou quieta! E amando minha cidade.Como nunca!!!
    Beijo.

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    1. Uma hora a gente quieta, né? Mas sempre existem aqueles que saem por aí e também aprendem com seus passos. Vai bem da pessoa. Eu não sei se estarei por aqui por muito tempo. Acredito que, em breve, eu vá para outra cidade para os estudos. A comida da mamãe vai fazer falta e o carinho dos pais também. Muito aprenderei caso saia debaixo da asa deles. Ainda é um mistério o que vem por aí. Mas adoraria continuar na minha cidade, se fosse possível.
      Porto Alegre é linda (e muito bem falada!)
      Beijo

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  3. AMEI o texto, Luís Fellipe!
    Na verdade, identifiquei-me com ele... Pois fui uma jovem cheia de sonhos, assim como você, e confesso que até o exterior estava em minha listinha secreta, mas lá se foi minha melhor amiga, e fiquei eu aqui POR MINHA PRÓPRIA ESCOLHA!
    É interessante como a vida vai mudando o rumo das coisas e, de repente, quando vem a oportunidade de partirmos para o lugar ideal de nossos sonhos, entendemos que não é lá, ou pelo menos não é o momento. E escolhemos outra coisa.
    E algo importante: entendi porque simpatizo taaaanto contigo! É mineirinho! rsrsrs Morei por essas bandas, mas já adulta... e amo completamente Minas Gerais. Mas para viver, estou muito bem no meu sul gelaaaado e lindo.

    Um abraço!

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    1. Suzy, quando a realidade do país pesa nas nossas costas, a gente tem essa vontade de fuga, paixão por exterior. Às vezes nem precisamos disso, basta conhecermos aquelas paisagens lindas ou aquele ritmo de vida que tanto a gente gostaria de ter. Nem sempre tudo ocorre como planejado... E acabamos montando o caminho de nossas vidas com essas escolhas que, por sua vez, são extremamente importantes.

      Minas é um lugar incrível. Como dizem, sou Mineiro de coração e Paulista por migração! rsrs

      Abraço!

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  4. Olá. Parabéns pela postagem. Estou seguindo seu blog. Siga o meu http//:gauchaopina.blogspot.com, se QUISER. Curta a minha página no Facebook também: http://www.facebook.com/BlogPlanetaCurioso?ref=hl .Até mais e obrigado. Um abraço. Admiro todos os blogueiros, que lutam por um espaço na internet.

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    1. Olá, seja bem-vindo!
      Obrigado por visitar, já sigo o seu!

      Abraços

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  5. olá parabéns pelo belo blog repleto de textos belos que alimentam a alma e eu escrevo alguns versos e se desejares conhecer http://www.joselito-expressoesdaalma.blogspot.com.br/, serás bem vindo

    um forte abraço

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    1. Olá, seja bem vindo. Já passei pelo seu blog, muito bom.

      Abraço.

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  6. O que você escreveu tão lindo e levemente, é o retrato de tantos jovens que almejam sair por aí animadamente, mas que, não raro nem se importam com o devir. Sempre estou pelo seu blog! Parabéns!

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    1. Olá, fico muito feliz que tenha gostado. Obrigado!

      Abraços.

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  7. Oi Luiz. É assim que vamos crescendo, que vamos aprendendo as passadas da vida! Adorei teu texto. ma aprendizagem viva!


    Beijo!

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    1. Olá, srta, quanto tempo! Fico feliz com sua visita.

      Crescemos e construímos nosso caminho de acordo com nossas escolhas, né?

      Muito obrigado
      Beijo!

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Obrigado!




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