sexta-feira, 12 de julho de 2013

Chuva de infância


     
Fonte
      Quem sai na chuva é para se molhar.
Fazíamos do ditado o nosso lema. Não importava a roupa, apenas tirávamos os sapatos e corríamos para a calçada, em frente à casa da vovó. Minhas companhias eram duas primas. E não poderia esquecer da ilustre e inusitada presença do vovô, que vestia um espírito jovem, o qual ele sempre teve, e saía conosco a fim de curtir aquelas chuvas de verão.
      Pique-pega era um ótimo passatempo. Às vezes surgia uma bola no meio da brincadeira ou então a ideia de fazer barquinhos de papel com jornalzinho de supermercado. Colocávamos o barquinho na enxurrada e eles apostavam corrida. O que chegasse ao final da rua mais intacto, vencia. A chuva, porém, sempre naufragava os coitados.
      A vovó, nesse meio tempo, se comprometia com leite quente e bolinho de chuva, além de preparar o banheiro e as toalhas para nos receber depois daquela farra toda. O piso, todo desidratado, nós fazíamos questão de hidratar. Levávamos água da chuva para todo o canto da casa. Quem limpava a bagunça? Vovó. Enquanto a gente comia, ela fazia questão de enxugar tudo e fazia com gosto. Amava estar rodeada pelos netos. E ainda ama.
      Não posso dizer que nunca mais tomei chuva. Acontece que deixou de ser proposital e passou a ser por falta de opção! Na ausência do guarda-chuva ou até mesmo na sua vã presença, na correria de um dia qualquer, faz-se necessário continuar caminhando, do contrário surgiriam problemas com horários. Dá para sentir que é quase impossível receber uma chuva sorrindo.
      Se antes tudo o que eu tinha para molhar era a roupa do corpo, agora tenho a mochila, os livros e aquela-coisa-que-não-pode-molhar-de-jeito-nenhum, que ironicamente aparece quando vou tomar uma chuva daquelas.
      Quando a natural previsora do tempo, comumente chamada de mãe, avisa sobre chuva, já nem adianta me preocupar muito. Se a água aparecer numa hora inoportuna, estarei lá com minha humildade, enfrentando cada pingo.
      Tudo o que evito fazer é sair de branco e usar um sapato que dê trabalho para limpar. No máximo, faço minhas preces. Falar com São Pedro nem adianta mais. Recorri logo para São Longuinho.
      Se ver a chuva por aí, esconda ela pra mim e eu darei três saltos ornamentais.
      Às vezes funciona. Às vezes não.  Mas, como dizem por aí, é sempre bom olhar o lado bom das coisas. Se a chuva me pegar de surpresa, então, algo valerá a pena: recordar os meus (chuvosos) dias de criança.

Luís Fellipe Alves

6 comentários:

  1. Amo chuva!
    Ver, ouvir o barulho que faz ao cair nas calhas, nas telhas nos vaso, no chão, o cheiro que exala ao cair na terra. O frescor que traz!
    Não gosto quando são muito fortes,penso nos que não tem uma casa segura e tenho pavor de trovões.

    Adoro acessórios, mas sombrinha nunca foi um dos meus. Não gosto nem do nome. E capas plásticas são muito fotográficas, coloridas, mas nunca tive intimidade com elas.
    Sempre tomei chuva e nunca morri não, nem me afoguei e olha que não sei nadar e já tomei muita chuva, só de roupa qd pequena sob os berros de adultos, que depois nos enxugam, dão banho quente, calçam meias e dão algo morno para bebermos, quase uma operação de resgate.
    Tomei tb na adolescência e adultência, com mochila, bolsa, celular, filho...

    Já sai na chuva depois de grande só por gosto de me molhar. E estico a mão as vezes quando chove, para fora da janela para molhar de chuva, sentir, cheirar depois.

    Sinto que água da chuva é uma água benta, diretamente da fonte.

    Eu faria, sempre digo isso, se tivesse o endereço, uma cartinha para Deus, dizendo que tenho uma pequena sugestão de mudança na criação: Chover morninho seria a perfeição.

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  2. Com chuva, ou sem chuva, eu amei e invejei a vestimenta de tua avó: vestia um espírito jovem.
    ah! Também quero me tornar avó assim. Já aprendi a fazer bolinhos quentinhos de chuva.
    Sabe que você me pôs em espera para o verão e chuva morna,sem trovões.
    Se conseguir, vou fotografar!
    Beijo

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  3. Mas que chuva linda esta da tua lembrança Luis. Lembrei das minhas épocas eram bem assim. Chuvas lindas e convidativas. Hoje passam despercebidas... Esse negócio de crescer ás vezes nos surpreende.

    Adorei sua visita lá no blogue!
    Abraço pra ti!

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  4. O bom mesmo, para acompanhar a chuva, são essas lembranças que ficam da infância, juventude! E nunca esquecê-las! Acho o melhor da vida regada às carícias da vó - que dizem que só sabem nos deseducar! rsss.
    Bela narrativa!
    Beijos!

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  5. Olá, amigo,

    Vc já descobriu o segredo:o bom humor! Que ótimas lembranças a chuva lhe traz. Eu também gostava de brincar na chuva, embora fosse sozinha mesma. Mas era bom do mesmo jeito! Parabéns! :)

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  6. Oi Amigo,
    Escritos gostosos de se ler, próprio da sua idade. Não tenha pressa de mudar o teor dos seus escritos para não envelhecer sua mente.
    Adorei e li outros, qualquer dia volto para ler mais
    Um beijo no coração
    Lua Singular

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Obrigado!




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