domingo, 7 de julho de 2013

Onze corações


FNE





Durante uma daquelas aulas de segunda série, em que os alunos têm sua primeira experiência com as variações animais classificadas pela biologia, a professora idealizou um passeio pelo jardim do colégio a fim de encontrar espécies que ilustrassem melhor a sua aula.
Enquanto caminhavam pela grama, a docente comentava algumas curiosidades. O garoto, então, viu uma aranha.
Professora, tem uma aranha aqui!
Querido, aranhas não são insetos...
E por que não?
Porque elas estão em outro grupo.
Qual?
Um outro grupinho de animais...
Mas qual é?
Você ainda vai aprender quando for maior.
Maior quanto?
Depois do quinto ano.
Mas vai demorar...
É que você precisa ainda aprender outras coisas, Pedro...
Até lá eu fico com essa dúvida, professora?
A mulher não sabia o que responder. De certa forma, fazia sentido.
São aracnídeos. – Respondeu rapidamente e mudou de assunto na velocidade da luz.
Bem... Classe, vocês sabiam que existe um besouro que tem onze corações?
Algumas crianças comentaram a curiosidade. Outras continuaram a procurar os insetos. O garoto, porém, havia mais do que escutado aquilo. Não procurava mais por algum inseto, mas pensava no pequeno besouro cheio de corações. Como caberiam tantos? Não se esquecera de sua pergunta. Na primeira oportunidade, procuraria sobre. Mas agora o besouro chamava mais sua atenção. Pra quê tantos corações?
Não disse outra coisa quando chegou em casa. Foi direto para a sala, aonde o pai assistia a TV e desfazia a gravata do dia de trabalho.
Pai, hoje a professora disse que existe um besouro que tem onze corações!
Nossa, filho, tudo isso? – Em seguida, o pai gritou para a esposa, que estava na cozinha. – Amor, olha aqui o que o Pedro tá dizendo... A poligamia na vida animal!
Pai, o que é poligamia?
Você ainda vai aprender.
Mas porque o besouro faz poligamia?
Porque você disse que ele tem onze corações. Um pra cada esposa!
Poligamia é ter muitas esposas?
Isso, filho.
A mãe, então, apareceu na sala depois de ouvir o marido chamá-la.
O que você disse, querido?
Que o Pedro tava falando sobre a poligamia na vida animal.
Se fosse só com os animais irracionais...
Não começa, hein.
Tá. Por que poligamia?
É que existe um besouro com onze corações...
Nossa, onze? Imagina que esposa mais sortuda! Quando os onze corações amolecem, ela ganha onze presentes. Eu escolheria aquele colar que vi no sábado e babei. Falando nisso, tá chegando o dia das mulheres, Márcio.
O garoto não ficou para ouvir o restante da conversa. De certa forma, acreditou que os pais não estivessem verdadeiramente interessados no tal besouro como ele estava. Subiu para o quarto, então, e resolveu procurar na internet sobre o bichinho. Depois de alguns minutos, o interfone soou dentro da casa e o menino sequer prestou atenção. Estava imerso nas suas curiosidades.
Pedro, a sua dinda tá aqui... E ela trouxe a Laurinha!
Laurinha era a filha da madrinha de Pedro e regulava com a idade do garoto. Quando o menino desceu, cumprimentou a madrinha, que deu ao garoto uma caixa de chocolates e afirmou com a maior certeza do mundo que Pedro havia crescido bastante. Logo em seguida, a mulher pediu que os dois subissem para o quarto, pois haveria ali papo de adulto.
Por que a gente não pode ouvir papo de adultos? – Perguntou o garoto.
Porque é papo de adulto, ué. – Respondeu a madrinha.
E adulto  fala coisa que faz mal pras crianças, dinda?
Não, querido...
Qual o problema, então?
Por que vocês não sobem e jogam algum joguinho? – A mãe do garoto interferiu na pequena discussão e Pedro e Laurinha subiram, não totalmente convencidos.
Quando chegaram ao quarto, Pedro viu o computador e lembrou-se da aula daquele dia.
Laurinha, você sabia que tem um besouro que tem onze corações?
Onze? Mas besouro é tão pequeno! Ele deve amar muitão, né?
O garoto concordou com um sorriso meigo e os dois devoraram a caixa de chocolates enquanto desenhavam o bichinho na folha de papel.

Luís Fellipe Alves

7 comentários:

  1. rsrs, mas que garoto cri-cri! Mas coberto de razão. Se ele soubesse como é o mundo do adultos, que mão de obra é viver nesse mundo, não perguntava mais nada, ficava no seu mundinho lindamente ingênuo. Muitas vezes é mais fácil dizer o que a criança quer saber do que rodear, e vir com o papo de 'mais tarde', ou 'quando crescer'! Criança não está afim de esperar.
    Seu texto dá várias interpretações, é rico. Dá pano pra manga. Mostra a cabeça da mãe, da 'profe', e pinça o relacionamento dos adultos.
    Muito bommm.

    Beijo, Fellipe!

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    1. Concordo totalmente, Tais. Se esse Pedrinho soubesse o que a gente passa por aqui, certamente ficaria quietinho! rs Se fosse destemido, iria se preparando para enfrentar essa loucura.
      Gostei da interpretação que fez do texto. É exatamente o que eu queria mostrar. Já fui um Pedro, no ambiente "escola". Perguntava bastante. No pré, questionei um coleguinha com a seguinte frase: "Por que a gente tem que pagar pra estudar?" Não me esqueço da cara dele e a resposta: "Nossa, é mesmo. Por quê?" rsrs

      Obrigado pela visita, beijo!

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  2. Adorei a história.
    Tem td a ver com minha postagem de hoje sobre essa tal comunicação e os corações, besouros, aracnídeos, zunidos e doçuras que há nela.

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    1. Muito legal essa nossa sintonia de postagens. Pedro é hipercomunicativo, questionador. E pouco ouvido. Tadinho!

      Obrigado pela visita, um abraço!

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  3. Que delícia ser criança e ter essa curiosidade aguçada, essa sede de saber, esse encantamento até mesmo com as mais simples descobertas! Pedro é um questionador tão pouco ouvido e menos ainda compreendido... Que bom que chegou Laurinha, com quem dividir essas preciosidades! É bom que aproveitem, enquanto são crianças, pois logo que crescem e perdem essa visão linda do mundo, passam a simplesmente seguir a correnteza... deixam de se encantar com os reais encantos da vida!

    Talvez a sua intenção com o texto tenha sido outra, mas assim ele chegou para mim e trouxe uma bela mensagem. Espero estar sensível as observações dos Pedros que tenho em casa, pois, acho que você já percebeu, estou cercada por eles! rsrsrs

    Um abraço!

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    1. Suzy, como disse nossa amiga Taís, o texto permite várias interpretações e com certeza uma delas é a que você apresentou! Eu não ouvi sobre o besouro na minha infância e sim há alguns meses atrás numa aula de biologia. Mas então veio aquele flash, olhando uma criança no ônibus, no mesmo dia: Como ela interpretaria essa novidade? Não testei. Mas refleti, lembrando-me de como eu fui na minha infância. E coloquei no papel. Quantos Pedros temos hoje por aí, não é mesmo? E é lindo preservar isso numa criança e estar ao lados delas nas descobertas mais simples. Nós adultos escutamos tantas coisas que pouco absorvemos - até mesmo a gente que escreve crônica e precisa ficar de olho no mundo, sempre perdemos alguma coisinha - mas ainda podemos resgatar isso de uma maneira fácil. Basta vivenciar as descobertas com essa criança. E você aí, rodeada dos Pedros, está muito bem acompanhada nessa tarefa!

      Um abraço, brigadão pela visita!

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  4. Adorei o texto Luis. vendo o Pedro lembrei dos meus pequenos. nesta época a curiosidade é aflorada. Nem sempre são compreendidas, uma pena por sinal. Mas o que mais me chamou atenção foi a frase da Laurinha no final do texto.

    — Onze? Mas besouro é tão pequeno! Ele deve amar muitão, né?

    Amor demais este tempo! aprendo muito com eles!
    E aprendi com Pedro e Laurinha hoje.

    Beijo pra ti!

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Obrigado!




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