quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Gole de esperança



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Venho lutar pelo direito de relaxar. Pelo direito de poder sentir uma brisa, aquela que passa nos dias frescos e varre as folhas secas da calçada. Olhar as nuvens e adivinhá-las. Desenhar no céu com a minha criatividade, como muito fiz quando criança.
Devo estar pedindo demais. Estou? Quero respirar ar puro das manhãs, tardes e noites. Sentar na praça sem medo de ser incomodado por delinquentes. Quero uma praça verde! Onde estão? Recuso-me a aceitar as invasões ultra-antrópicas, como lixo jogado na grama ou até mesmo a sola de um sapato em contato com as folhinhas verdes. Ver crianças brincando, sorrindo, tomando raspadinha e jogando o copo na lixeira do plástico é pedir demais? Que pai consciente confia no ambiente assim?
Quero subir o viaduto e ver uma cidade sustentável. Olhar o horizonte e não ver uma linha escura de fumaça, mas sim a linha do céu azul que parece tangenciar esse nosso lar. Seria uma grande viagem pedir uma cidade que amanhece cantando e dorme ninando? Que não viva pesadelos todas as noites? Que não queime cana ou queime álcool desenfreadamente, no tempo seco? Um céu bonito. É pedir demais?
Pois quero que me devolvam as estrelas! Perderam-se quando as luzes amarelas foram colocadas em todas as partes. Olho para o céu e tudo que vejo são pontinhos isolados, tentando, com dificuldade, piscar. Que mundo é esse em que eu tenho que aproveitar quedas de energia para poder ver o que é do meu universo por direito?  Disseram-me que pras bandas da capital paulista não as veem com facilidade. Procede? Cadê o direito de viajar na imensidão do céu da noite?
Quero ver um rio feliz. Intacto da nascente a foz. Tem como? Tietê é um coitado.  Barragens de concreto, esgoto de alta vazão? Não e não. É delicioso jogar cascalhos planos no rio para vê-los pular na água antes de afundarem. Quem hoje faz isso dentro do próprio espaço urbano? Tanto lixo nas águas, tanta enchente, tanta doença. O rio que já era pardo, fizeram o favor de esgotá-lo com esgoto. Coitado!
Posso nem estar indo ao banco. Basta passar próximo a um e já corro o alto risco de ser a vítima de um assalto. Ou sequestro relâmpago! Estou parado no ponto de ônibus e sou obrigado a lidar com um pedinte que diz “a gente pede porque não gosta de roubar. Mas se for preciso, a gente rouba.” O susto foi inevitável. Verdade ou não, não quis arriscar. Pois, tiro do bolso cinco reais e entrego. São cinco reais que me poupam de um trauma maior. E se eu não tivesse sequer um centavo?
Relaxar não é o problema. O problema são as limitações. Sento e me acalmo. Penso estar finalmente livre. Quando respiro, o ar está pesado, seco. Tem alguém fumando crack a trinta metros. E alguém pegando lixo da lixeira. O avião passa barulhento no céu e não fica difícil ouvir buzinas e motores. Gente discutindo. Carro de som. Palmeiras imperiais sendo arrancadas para as obras anti-enchentes. Garotinho pedindo um trocado. Gente jogando fritura para pombos. Corredor de ônibus travado. Criança chorando. Um assalto a luz do dia. Som de derrapagens. Acidentes. Ah!  
Viver numa bolha nunca pareceu uma decisão tão sóbria como agora. Provavelmente nos transportemos para Marte. Para nós, meninos e meninas de Marte, seria fácil. Mas o ser humano parece estar fadado a repetir os mesmos erros. Não demoraria para que tudo se repetisse.
Não nos esqueçamos, porém, do gole de esperança. Saúde. 
Luís Fellipe Alves

13 comentários:

  1. Oi Lu´s Felipe! Antes de tudo, agradeço sua visita e comentário em meu blog. Seja sempre bem vindo por lá!
    Penso que deve seguir uma carreira voltada para as Humanas e não Exatas, já que poetiza seus escritos com maestria (brincadeira, também gosto das exatas, mesmo tendo feito Filosofia e Antropologia)
    Quanto ao texto, ele traduz o sonho de muita gente (que tem feito pouco - aí me incluo - e assistido muito o desandar da dicotomia campo-cidade). Também quero tudo aquilo e um pouco mais, mas o que fazer com o destino capitalista da maioria egoísta? o que fazer com os desmandos se a maioria não sabe nem votar? Como confiar nesses movimentos sem cabeça se se trata de um povo corrupto e mal educado? Que não lê e não vai à escola? Que reclama e não crítica? Que exige seus direitos e não cumpre seus deveres?
    Belo texto, reflexivo e convidativo!
    Um abraço!

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  2. Só nos resta sonhar mesmo! Um gole de esperança garante que sigamos sobrevivendo. Por milagre, ao acaso. Quem é que explica? Um grande abraço!

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  3. Lindo e triste :(
    Maravilhoso seu texto do ponto de vista da sinestesia, da construção paralela de poesia e crítica, sonhos e realidades. Amei :)

    Faço das suas minhas palavras e desejos, mas como menina de marte e ariana, que sempre se mete em tudo, recomendo não um gole, mas latinhas, copões, jarras de esperança.

    Guimarães Rosa disse que "Deus come escondido, e o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato", sigamos bebendo e comendo escondidos, desejando e fazendo por onde Deus coma e baba e todos e tudo se lambuzem por toda parte.

    "A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

    Se acostuma a sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem.

    A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

    Se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá e a vida, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

    Trecho da crônica: “Eu sei,mas não devia”, de Marina Colasanti

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  4. Olá Luís Fellipe,

    Linda crônica. Adorei e compartilhei.
    Um gole de esperança é o que eu tomo todos os dias.
    Compreendo seu justo desabafo. A situação do planeta está mesmo caótica e relaxar e respirar ar puro acredito que nem mais nas cidadezinhas do interior. De onde vim, havia todo este cenário maravilhoso de paz e beleza, mas, hoje, quando passo por lá aos finais de semana para ver minha mãe, fico impressionada com as mudanças e com os pedidos de minha irmã para manter o portão fechado. Como assim, se ele sempre ficou escancarado na época em que eu lá morava?
    Tudo mudou para pior, infelizmente, e o resgate de tudo dependerá unicamente de cada um de nós, da força e consciência do povo. E, para isto, haja fé e esperança.

    Parabéns!

    Excelente tarde.

    Abraço.

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  5. Hola luis!! Por lo que entendi, me gusto mucho el texto. Igualmente me gustaria, si podes, que agregues el traductor a tu blog. Asi lo que no entiendo puedo traducirlo.
    Paz y amor!!
    Besos.

    Pau.

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  6. Oi Luis!
    Está todo mundo querendo ir para Marte. Lá nós morreríamos rapidamente e aqui estamos morrendo lentamente.
    Não tem jeito não. É aguentar o trampo e ver no que da.
    Você é jovem, tal meu filho e irão sofrer as consequências da ganância desenfreada do homem. eu fui mais feliz, vi tudo isso até meus 23 anos. Depois tudo esmoreceu...
    Não vejo nenhuma expectativa de melhora, é daqui pra pior meu jovem.
    Por enquanto vamos sonhando que não custa nada
    Obrigada
    Beijos no coração
    Lua Singular

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  7. Agradeço pelos comentários e elogios! É muito importante contar com a opinião e também o ângulo de visão de vocês. Todos sabemos que o problema já está em altos níveis, o mundo grita e muitos não escutam. Mas façamos nossa parte, sempre. E não deixemos a esperança morrer.

    Paula Wiedrich, agradeço sua visita e, claro, vou providenciar o tradutor!

    Abraço a todos! :)

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  8. Olá Luis Felipe. Adorei sua mensagem. Sonhar é tudo. Nos move. Fortalece. Realmente está tudo mudado mas começa dentro da gente. Um forte abraço.

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  9. Fala, Luís, como vais? Recebi teu e-mail, e já li o texto do link, muito bom! Não conhecia aquele blog! O teu texto também está bom, e a imagem é linda, de quem é? Lutar pelo direito de relaxar é reconhecer a força e a necessidade dos minutos de nadismo em nossas vidas! E concordo contigo: o Tietê é um coitado, pobrezinho, tão sujo e tão abandonado! Aliás, por essas e outras é que estou onde estou, rodeado de águas azuis, areias brancas, morros e pedras, assumidamente riponga! Adoro Sampa, mesmo, adorei os anos em que morei nessa cidade, foram fundamentais para um monte de coisas na minha vida, percepções, rupturas, amadurecimento, a oportunidade de conhecer gente bacana e admirável, a oportunidade de estudar, de adquirir cultura, e até mesmo de viver um pouco em meio ao caos, ao barulho, ao movimento, mas, mesmo que tudo isso tenha sido muito importante para mim, hoje o que eu quero é somente o que tu escreveste aí no teu texto: relaxar! Há alguns anos, li uma biografia do Caio Fernando Abreu, que era gaúcho mas morou muito tempo em SP, onde ele dizia que São Paulo era uma cidade que fazia com que ele andasse sempre tenso pelas ruas, com os ombros duros. E que ele só foi se dar conta disso quando, depois de alguns anos morando em São Paulo, viajou para fora do país, para morar uns tempos em uma cidade pacata do interior da França. Ele disse que lá, nessa cidade, ele voltou a andar pelas ruas sem precisar estar sempre olhando para os lados, que voltou a ser uma pessoa relaxada, sem os ombros duros, ao menos por um tempo. Assim que acabei de ler teu texto, me lembrei disso, dessas falas do Caio. Porque além de ter concordado com ele, na época em que li a tal biografia, agora também acabei de concordar contigo! É isso! Espero que, na medida do possível, as coisas estejam bem para ti! Obrigado pelo e-mail, e fique à vontade para me escrever sempre que quiseres! Abração!

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  10. Ops, amigo, que linda prosa poética! Um desabafo misturado com esperança, com frustrações, com lembranças. Fellipe, uma das crônicas mais bonitas que li aqui. Cheia de sentimentos e de mágoas por um mundo que nós não construímos! Sim, são mágoas nossas, afinal, o que seria mágoa se não isso que sentimos, a destruição de nossos sonhos?
    Nada de sua crônica está fora do contexto atual, da vida que levamos, do que perdemos e ainda perderemos. Vamos levando, amigo...Talvez dias melhores virão, quem sabe lá?

    Um beijo, nota 10!

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  11. Maravilhosa sua crônica!
    Junto-me a ti nessa reivindicação pelo direito de relaxar! Não seria perfeito para todos? Por que, então, o mundo descamba justamente para rumo oposto? Não pra entender a mente do ser humano...
    De qualquer forma, enquanto li suas palavras, tomava um gole de esperança. Pude até sentir, por um instante, uma brisa suave jogando para trás meus cabelos... Vi, por segundos, aquele montão de estrelas que eu via quando pequena, lá no interior de onde venho... estrelas que ficaram lá atrás, no sertão, mas que se escondem amedrontadas dos horrores das grandes cidades...
    Embora retratando um triste contexto atual, seu texto foi positivo e enxertou em mim os mesmos desejos seus, e a conscientização é sempre um começo... Agradeço o gole de esperança, me fez muito bem!
    Aquele abraço, rapaz!

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  12. Luiz, muito bom seu texto!
    Um gole de esperança os sonhos continuam e a vida segue!
    Um abraço
    Pedro e Amara

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  13. Também quero viver nessa cidade onde não somos reféns do nosso próprio medo. Poder caminhar e ver alguma beleza, alguma natureza e não me preocupar em tombar com alguém que esteja procurando uma possível vítima. Respirar ar puro, sentar numa praça que não esteja cheia de lixo e sujeira, enfim... nós sempre temos aquela esperança de que "dias melhores virão"...

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Obrigado!




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