sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A independência de que precisamos





Já podeis da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil
Já raiou a liberdade,
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

O hino da independência esbanja liberdade. Muito persuasivo, eu diria. Não fosse pelo fato de que a escravidão ainda existia, conseguiria convencer. Pois a independência precedeu a libertação do povo negro em sessenta e seis anos. Não éramos mais de Portugal. Que diferença isso fez para o escravo que apanhou no dia seguinte, como se nada tivesse mudado? Talvez a esperança de tempos bons.
Meu sincero minuto de silêncio em homenagem aos integrantes negros da minha árvore genealógica, bem como todos os outros que, em mais de trezentos anos, sofreram as atrocidades da escravidão.
***
Passo ao dia seguinte. Dia da Alfabetização.
Educação de qualidade é um termo quase clichê. Um clicheísmo, porém, que não nasce da grande escala e sim da falta. Tem criança por aí que senta num pedaço de madeira, apoia o caderno sujo no colo, o lápis gasto tá na mão e os olhos fixos no pedaço de quadro lá da frente. Em dia de chuva, é mais água dentro da classe do que fora. A professora gostaria de comentar um pouquinho sobre chagas. Mas como, se a escola é feita de pau-a-pique?
Quando era eu sentado numa cadeirinha minúscula, numa salinha fresca, com o alfabeto e os números rodeando a classe, jamais passava pela minha cabeça que muita criança do meu tamanho sentava em tijolo pra aprender quanto é um mais um. Nunca me foi contada nenhuma situação assim. Cresci e vi com meus olhos na tevê, na internet, nos jornais. Quanta limitação para desbravar o mundo do conhecimento... Me diz: Quem é que não pensa, pelo menos um pouco, em desistir estando sob essas condições? Muitos desistiram, continuam desistindo e desistirão se nada for feito.
Não precisa estudar história a finco para saber que o Brasil é um país recheado de fracassos. Perdas feias, abismáticas, grande maioria assinadas pelo Estado. Uma ciência absurda, que permite refutar o caminho em que tem andado a educação do país. O bê-a-bá por aqui depende do tabuleiro da política – governo que xeque-mata a língua, a história, a geografia, a filosofia e a sociologia, para o bem próprio, sanidade perfeita.
Dados são apenas... Dados. As taxas de analfabetismo caíram e o nível de desempenho dos alunos melhorou. Isso fica comprovado pelo número de formados e pelas notas nos exames anuais, respectivamente. Mas ninguém se lembra da galera que sai da escola com o chamado Analfabetismo Funcional. Esse pessoal não tem embasamento para ler sequer um artigo de jornal e conseguir interpretá-lo. Isso é resultado de uma educação muitíssimo abaixo daquela essencial. Faltou apoio, cronogramas, treinamentos, muita leitura. Incentivo nem se fala. E a melhora no desempenho seria fantástica se não fosse trágica. É muito mais fácil diminuir o nível do exame do que aumentar o nível do ensino.
Precisamos de mais crianças lendo Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Eva Funari, Ziraldo! Ih, muitas delas mal sabem quem são esses autores. Várias só precisam se preocupar em contar moedas no semáforo. Algumas, em cuidar da casa e trabalhar para conseguir um trocado. Outras, em se proteger da criminalidade, quando ainda não são parte dela.
Alfabetização é para o pequeno, é para o jovem, é para o adulto e para o vô e a vó também. Nunca é tarde para rir de uma anedota, ou para balançar a cabeça com um texto sério. É sempre tempo de escrever um poeminha, uma crônica, ler deitado no sofá ou no aperto do ônibus. Nunca é cedo ou tarde demais para desbravar um mundo que é de direito de cada cidadão.
É dever dos pais incentivar a leitura; da comunidade buscar por melhorias na escola e na educação das crianças; do Estado subsidiar o encontro criança-livro-mundo mágico. É dever de quem nunca dependeu da educação pública olhar mais adiante e ajudar no novo rumo dessa história.
E só assim seremos livres. É essa a independência de que sempre precisamos. 

 
Fonte

Luís Fellipe Alves


6 comentários:

  1. Oi Luis,
    Você é jovem e teve oportunidade de ter os seus livros. Eu quando pequenina, ainda não ia à escola, queria aprender a ler e minha mãe semianalfabeta em pedaços de jornais que conseguia quando ia ao açougue, explicava mais ou menos o significado das letras e fui juntando e aprendi a ler. Entrei na escola e todo o meu estudo foi um sucesso. Não podia comprar todos os livros, então, fazíamos um mutirão: cada um comprava um único livro e íamos repassando para os outros.
    Fiquei tão traumatizada com isso que hoje tenho três estantes abarroadas de livros.
    Os analfabetos ou semianalfabetos são mais felizes, não ficam sabendo das atrocidades humanas.
    Bem, assim vamos tentando viver gradeados em nossas casas.
    Obrigada
    Um beijo
    Lua Singular

    ResponderExcluir
  2. Sabe o que é pior? É que a sociedade que queremos não está preparada para nós. Como diz o sociólogo Roger Sue no seu último livro, La société contre elle-même, "as despesas de saúde e de formação são invariavelmente apresentadas como cargas insuportáveis". O Brasil, em termos de educação, migrou recentemente de uma sociedade de elite para uma de massa. Estamos, sim, nesta sociedade neoclássica a que o sociólogo francês se refere. Bom, já sabemos que estamos perdidos. É um começo. Bom fim de semana, Luís Fellipe! :)

    ResponderExcluir
  3. Olá, Luis,
    Sou amiga da chica
    Amei seu blog, maravilhosoAbraços com carinho.....Araan
    http://blogaraan.blogspot.com.br/2013/09/a-xicara.html
    Já estou te seguindo, espero sua visita co muito carinho

    ResponderExcluir
  4. Educação é requisito de liberdade.
    Gostei muito dos teus textos.
    Fico.
    Um bj

    ResponderExcluir
  5. Meu minuto de silêncio.



    Palmas para os dois assuntos abordados!



    "Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda."
    Paulo Freire

    ResponderExcluir
  6. Poderemos realmente comemorar a independência quando a educação for a prioridade em nosso país.
    Bela reflexão seu texto nos traz.
    Beijo

    ResponderExcluir


Obrigado!




Ir para o Topo