quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Ônibus tupiniquim

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Não é uma das experiências mais fascinantes da vida. Não passa nem perto, mas quando se é pequeno, não tem nada mais divertido do que se espremer no corredor, equilibrar-se nos suportes e pular bem alto quando o ônibus passa em uma lombada.
Da experiência infantil, carrego meu fascínio pelos bancos altos – e os traseiros, que propiciavam um pulo muito maior nas lombadas. Quando tomava a condução com a vovó, ia ao colo dela. E nas curvas, eu temia que o ônibus tombasse. Não, eu não conhecia amortecedor, nem qualquer outro elemento mecânico. Adorava o trólebus, mas ficava pensando se, sei lá, o ônibus resolvesse dar choque em tudo mundo lá dentro. Fui uma criança cautelosa.
Chegou o dia em que precisei tomar o ônibus sozinho. É verdade que meu avô tomou a linha comigo. Mas desceu nos Campos Elíseos. Eu fui além, meu destino era o Centro. Não fosse pela volta um pouco desastrosa (eu errei o ponto de retorno) teria sido cem por cento.
Não me esqueço do dia em que esbarrei com um vizinho no ponto perto de casa. Ele, já programando uma pegadinha, perguntou se eu ia pegar ônibus. E eu disse que sim. Devolvi a pergunta usando o mesmo verbo. E a resposta:
- Eu não. Ônibus é muito pesado.
É com esse humorzinho de ponto de ônibus que você aprende que para a falta de um verbo mais adequado, fica melhor o “tomar”. Mas sei lá. Na cabeça de uma criança de dez anos, tomar é beber ou tomar é tomar banho. Eu continuei usando o meu pegar sem medo de ser feliz.
Depois de muito tempo usando transporte público, você passa a notar muita coisa. A primeira da lista é humildade: Não adianta colocar o salto 15, madame, e empinar o nariz, não. Vai virar chacota. A segunda é: ônibus parece coração de mãe. Sempre cabe mais um. E se não couber, espreme todo mundo, murcha a barriga, junta os pezinhos e vamo que vamo. A terceira: Nem todo mundo gosta de desodorante ou perfume. Uma pena. A quarta: se o cobrador não tiver dez centavos para devolver, fica por isso mesmo. Mas se você der o dinheiro da passagem com dez centavos faltando, bye bye. A quinta: jovem que não tem o mínimo de respeito por idosos bota o óculos escuro, encosta a cabeça no vidro e finge estar em sono profundo só pra não ceder o lugar.
Ônibus é lugar de escutar e encontrar de tudo. De fofocas corriqueiras a assuntos sérios sendo cochichados em meio público. Gente que fala alto, gente que mantém descrição. Música alta, gostos musicais diversos. Pessoas que leem, estudam mesmo com aquele balanço todo. Gente que canta, ri e chora. Criança emburrada ou pulando de um lado pro outro.
Nas idas e vindas, conheci uma senhora que cuidava de outra mais idosa e debilitada. Tinha eu meus quinze anos. Tudo estava tranquilo enquanto o papo era somente sobre o tempo e o horizonte poluído da cidade, que nós víamos nitidamente por estarmos, ali, no ponto mais alto. Pois bem. Não demorou uma semana para começarem os detalhes nada agradáveis sobre as doenças da tal idosa que ela cuidava... Fui solidário. Como se já não bastasse tudo isso, ela se viu mais íntima, como se fossemos velhos amigos. Acendeu o cigarro e papeou comigo, normalmente, como se a fumaça não existisse. Troquei de ponto, claro. 
Depender de transporte público no Brasil é difícil, sim. Ficamos reféns do tempo, nos submetemos a um convívio por vezes desagradável e, também, a variadas situações adversas. Cansa o psicológico, cansa o corpo, e malha a rotina. Mas é um ótimo exercício para a paciência, além de enriquecer a argumentação contra a política pública. Para um cronista, ônibus é um prato cheio.
Mas...
Ainda assim.
Deus me livre do ônibus tupiniquim!
Luís Fellipe Alves

13 comentários:

  1. Luís. Adorei. Ri muitas vezes, em algumas me identifiquei. Sim. É um ótimo exercício para a paciência. Ontem mesmo me perguntava dentro de um ônibus. Como somos reféns . Ainda mais em um dia de chuva. Parece tudo mais cheio. No minuto em que se vê um desrespeito, agradece por alguma gentileza. ( Lindo o começo de você quando criança). Beijos!

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  2. Ônibus são mesmo um prato cheio para crônicas, pontos de ônibus também e táxis também. Tudo é, eu acho...rsrs

    Acho que ônibus são verdadeiros atestadores de gentileza, de senso de coletividade (cantorias, som alto, batuques, papos no volume máximo ao celular...), de civilidade de um modo geral, de jogo de cintura (em toda extensão do termo) e outras cositas mas.

    Boa cronicalizada!

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  3. Oi Luís,
    Eu pouco andei de ônibus, minha cidade era e é pequena só havia dois carros, charretes, ônibus tinha quando se ia para São Paulo, mas o trem era mais barato. Vou pular um pouco. Já casada morava numa metro´pole, você fala de ônibus apertado, já arrebentei a cara d'um sujeito que foi se arrochando sem minha ordem, o meu golpe de karatê foi certeiro.rsrs, no ônibus cortei com gilete os gracinhas, isso porque tinha dois carros na garagem, mas eu gostava de conversar.kkk
    Eu fui uma piada, hoje com meus 66 anos, relembro as peraltices que fiz e caio na gargalhada. Sempre contei tudo para o meu marido. Nunca ligou.
    Só há um problema: sempre fui feliz desse jeito.
    Beijos
    Lua Singular

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  4. Andar de ônibus pode render boas histórias mesmo... uma vez eu entrei em um portando vários livros e o maldito (ou bendito?) deu aquela arrancada e eu caí por cima de um rapaz... com vergonha, nem olhei pra cara dele, só me desculpei e catei os livros. Pra minha surpresa, quando me virei pra procurar um lugar, ele disse meu nome... fui ver era um cara que vivia me paquerando (época de adolescência, sabe)... vergonha dupla. Enfim... tem aqueles que entram no ônibus ainda e pedem a atenção de todo mundo pra começar o tão conhecido discurso: 'eu podia tá matando, eu podia tá roubando"...
    E quanto a piadinhas, já escutei uma assim: "Vai pegar o ônibus?" - "Não, ele que vai me pegar".
    Um abraço!

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  5. (risos) Ando precisada de um ônibus. Há lotação de histórias! No carro, só nos irritamos com o trânsito engarrafado. Não tem a menor graça, Fellipe! Abração.

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    1. Comentava isso com um amigo esses dias: carro é a falsa sensação de liberdade. Não tive a menor pressa de querer um depois de receber a habilitação rsrs

      Abraço!

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  6. Tenho dois problemas com o ônibus: o primeiro é que sou muito baixa e o "p.. m.." para segurar é muito alto. O segundo é que eu acho que tem gente que gosta demais de perfume e desodorante e o excesso irrita a minha bronquite.

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  7. kkk, lindas recordações do tempo que a educação era prioridade.
    Hj em dia entra um idoso, o cobrador tem que gritar: levanta ai que tem idoso querendo sentar.

    Falta educação e bom senso.

    tenha um ótimo fds =)

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  8. gostei muito do blog e já estou seguindo...Te convido a visitar o meu cantinho. ->http://www.marciooalves.com

    abraço!!

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  9. Gostei Luis, parabéns pelo texto, esto te seguindo, bom final de semana. Apareça para conhecer meu cantinho na Literatura
    www.rute-rute.blogspot.com.br
    Beijos

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  10. Luís Fellipe, citei teu blog em uma postagem e coloquei lá um quadrinho que muito me lembrou este teu texto, hehehe!
    http://duasepocas.blogspot.com.br/

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  11. Luís, cheguei até aqui por indicação da Tina, e gostei do que li. O ônibus é meu escritório, pois é nele que digito os meus textos. Abçs.

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  12. Luís Fellipe, uma diversão esta sua crônica!
    Fiquei lembrando das minhas idas e vindas... com o detalhe de que tenho em meu currículo o 'turismo' pela zona rural, onde eu lecionava imediatamente após a graduação: havia, no trajeto, um trecho entre dois açudes, sem qualquer proteção nas margens. Não queira saber o pânico que eu passava em dias de chuva, quando o ônibus cruzava aquele trecho ziguezagueando no barro... sinto-me uma sobrevivente! rsrsrs
    Voltando para a civilização, já ouvi todo tipo de confidência nos coletivos urbanos. Interessante como o povo não tem o menor senso de privacidade, conta-se de tudo... razão pela qual um cronista se sente realizado num ônibus, não é mesmo? rsrsrs
    Tenho também as minhas crônicas, contando as peripécias desses tempos... Bom demais conhecer as suas!
    Abração pra você, ótimo findi (a la Sueli)!!!

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Obrigado!




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