domingo, 22 de setembro de 2013

Um convite da Primavera




Créditos na imagem.
Fui contemplado.  Isso porque eram lá umas quinze horas da sexta 20, calor infernal, o trabalho latejante na cabeça. Não aguentava mais o barulho do teclado, a caneta quase tocando o osso de meu dedo, porque eu coloco uma força inexplicável no tubinho, mas não na escrita. O relógio parecia retroceder, havia até uma mosquinha presa dentro da sala, perdida olhando para as paredes brancas e verdes. Procurava uma janela; não achou. Fui solidário em abrir-lhe a porta, por onde ela passou e nunca mais deve ter entrado. Mas, como dizia, fui contemplado. Chamaram-me para conferir um material no estoque. Ah, logo agora que eu queria ficar sentado refletindo sobre qualquer coisa ou sobre coisa nenhuma? Fui. Tudo bem cinza, aquelas barras de ferro empilhadas, que hora ou outra seriam cortadas, lixadas ou sei lá o quê. Ainda estavam intactas, mas eu poderia garantir que durariam muito pouco tempo assim. Talvez suas vidas dependessem apenas do tempo que eu demoraria a conferir, pois os materiais não podem sofrer qualquer lesão antes da contagem e verificação. Estava a conferir. Uma, duas, três, quatro. Certo. Seis dessa. Duas daq... Não menti ao dizer que fui contemplado. Quando me aproximei daquelas vigas ferrosas, duras e paradas, ou mais precisamente quando elas couberam aos meus olhos, algo se destacou naquele espaço monocromático. Havia um par de asas verdes, com algumas bolinhas pretas. Uma borboleta pousava sobre aquele cenário feio, certamente não esperava se camuflar, de longe seria vista. Mas era um verde grama, sem puxar o tom escuro, mais perto de um marca-texto. Entre a fluorescência e a grama. Ah, é inexplicável. Mas ela estava ali. E o que estaria fazendo naquele lugar? Seria tão mais bonita numa paisagem clara, ao sol forte e céu azul com nuvens desenhadas. Grama fresca, regadores, rosas e margaridas, ipês que chovem pétalas róseas e amarelas. Mas no meio de vigas não ficava legal. Fitei-a por um instante, resolvi chamar outra testemunha. Mas, ao meu primeiro passo, a borboleta deu início ao voo de partida e saiu pela janela tranquilamente. Não adiantava mais chamar alguém. Sentei-me no banquinho sem recosto, descansei [ou não] as costas, coloquei os papeis no colo. Minha mente tratou de criar hipóteses que explicassem aquela visita. E a melhor delas foi que a borboleta vinha me convidar a não desperdiçar a primavera dessa vez. Tudo o que ela fez foi aparecer, e aí eu pude lembrar que a estação chegaria a menos de três dias. Ainda que seus três meses pareçam o suficiente para deixar para depois, mais do que depressa eles tendem a passar. E quando ela vai embora, deixa seu adeus de alguma forma, sua lágrima a falta de atenção e seu carinho a quem lhe fez companhia.  Mesmo que eu não possa fazê-lo integralmente nas vinte e quatro horas que compõem o dia, tive a honra de aceitar o convite e prometer o meu melhor. Irei pousar, também, no seu cotidiano, que não demorarei a chamar de meu, com todo prazer.
E porque a primavera pôs a borboleta a seu serviço e não as flores, que são seu símbolo mais comum? Porque as flores escolheram ser guiadas pela brisa; não voam por conta própria. Na primavera, cada um tem sua função. A borboleta convida, o sol aquece, as nuvens entretém, a água refresca, a brisa dança e as flores ilustram e simbolizam o verdadeiro espetáculo dessa belíssima e necessária época do ano. 

Luís Fellipe Alves

7 comentários:

  1. Oi Meu jovem,
    Quantas ilusões maravilhosas! Eu já vivi uma primavera de dar satisfação aos olhos e a sensibilidade de sua fragrância que impregnava todo meu corpinho de menina que andava descalça no meio da relva verdinha conversando com as plantas, querendo pegar o beija-flor e os meus olhinhos ofuscavam de tanta beleza ao ver lindas borboletas coloridas. Depois do descanso na relva já chegando o crepúsculo do entardecer, a brisa se fazia presente e batia meu rosto a orvalhá-lo.
    Todo esse tempo ficou na lembrança que não olvido jamais e tenho pena dos mais jovens que têm que conviver com essa natureza fria proporcionada pelas mãos de homens inconsequentes.
    Adorei seus escritos, desculpe a extensão do comentário...
    Obrigada
    Beijos
    Lua Singular

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  2. linda postagem Felipe.. Viva a primavera'

    Obrigado pela visita ao meu blog.

    abraços!!

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  3. Encantadora história, sensibilidade, narrativa.

    Borboletas, passarinhos, flores, euforia e calmaria, milagres, ação, contemplação e mais de humano em nós :)

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  4. Também vi uma borboleta. Linda, no seu texto! Abraços, Fellipe! :)

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  5. Lindo e receber convites assim dizem muito! abraços, tudo de bom,chica e linda primavera!

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  6. Que lindo, parabéns pela sensibilidade.
    Tudo se completa de algum jeito =)

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  7. Mas que texto lindo!!! Que inspiração!
    Fellipe, esse foi, de tantos, o texto mais lindo que li aqui. Você saudou a primavera lindamente: com sensibilidade e muita criatividade.
    Dou 1000, parabéns! Mexeu comigo.
    Você tá ficando cada dia melhor.
    Beijos, amigo.

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Obrigado!




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