segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Há Seca, meu irmão


Fonte

É com enorme pesar e talvez uma parte de culpa que assisto as catástrofes pelas quais o mundo passa. Nós, brasileiros, não estamos acostumados com tufões, tempestades arrasadoras, tornados. Mas o nosso país tem os próprios problemas climáticos que anualmente reprimem e até matam a população. A seca nordestina, tão viva e presente, é um grande exemplo.
A Seca não é só uma história que ficou no passado, como na obra de Graciliano. Aliás, Vidas Secas atravessou décadas e veio aos nossos olhos contar o que ainda hoje procede, com alguns diferenciais, mas a mesma estrutura (e espero que pelo menos um pouco do otimismo e esperança das personagens).  
A estiagem é tão certeira anualmente que nós, que não sofremos o problema, nos acostumamos. As notícias passam transparentes aos olhos, já nem notamos. E se acostumar é um grande perigo, já que é de nós, de fora, que pode vir grande parte da ajuda. A cooperação é muito vasta, mas pouco aplicada.
Outro fator que tende a mascarar os problemas do Nordeste é a economia crescente. E aí está o erro. Quando ouvimos que é dessa região que sai uma grande quantidade de manga e uva pra exportação, já tendemos a pensar que as coisas estão melhorando, quando essa é só uma amostra de um vasto território cheio de diferenças.
Não é porque tem parreiras crescendo sob o sol ardente que as coisas tenham mudado. Aquilo foi um manejo especializado, todo trabalhado com o dinheiro privado, muito possivelmente após estudos e verificações de que daria certo. Nada em benefício da população.
O Estado, responsável por solucionar tal questão, resolveu transpor o Velho Chico. E o resultado é que muitas obras estão inacabadas e o problema ainda existe, como fora previsto pelos estudos que iam contra as obras. Esses estudos até apontavam que o Nordeste é a região mais açudada do mundo e que as obras de transposição além de caras, seriam ineficientes. A intriga da oposição, que até faz um sentido, era que a escolha pela transposição estava ligada ao desvio de verbas comum que acontece na política nacional.
E 2013 é o Ano Internacional da Cooperação pela Água. Um projeto que, em suma, quer dar as mãos dos países com uma promessa de cooperação do recurso hídrico. Mas aí você pensa: num país como o Brasil, que tem embaixo de si um aquífero, não se consegue manejar a disponibilidade de água no próprio território, quem dirá cooperar com o problema estrangeiro?
A humanidade está num barco longo, extenso. Furado em algumas partes, destruído nas bordas, já cansado. Não digo de um lado, nem do outro, mas tudo misturado: há pessoas remando a favor da tempestade e outras contra; algumas com baldes retirando a água que entra e outras fazendo novos furos. Outras, nem um nem outro. Lixam a unha com tranquilidade como se o problema não existisse. Nós somos tripulantes de uma embarcação que naufraga. Resta saber quem terá êxito no final: o fim ou o recomeço.
A Seca existe. É real, vermelha como sangue e tão cruel quanto a ignorância de muitos Homens.  

Luís Fellipe Alves

20 comentários:

  1. Onde eu moro, temos medo da água.

    Um abraço

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    1. Fui conferir o local no seu perfil, e acertei no que tinha presumido ser...

      Que nesse verão a chuva não caia para assustar.

      Abraço!

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  2. A seca é triste! As enchentes tb são uma tristeza!
    E ao contrários dos tantos eventos catastróficos naturais mundo a fora, muito do que muitos brasileiros sofrem é por incompetência pública e privada, por má gestão, por interesses econômicos e individualismo demais, por muito carnaval e pouca consciência social.

    De carros pipas a obras, não as faraônicas, as simplesinhas mesmo, envio através do exército, barragens, barreiras, contenções...tanto pode ser feito, muito devia ser cobrado, vigiado, exigido
    Pessoas e animais que são fonte de renda e alimento morrendo de sede x Pessoas, empresas desperdiçando água, animais domésticos com futilidades absurdas de reis
    Mundo seco de coletividade, de atitude, de coer~encia!

    Todo mundo curte, compartilha, sabe, mas nada faz. Grandes cidades, metrópoles fazendo um apelo, um mega cartaz, um flash mobile, uma campanha, pelo sertão, milhões de baldes espalhados por onde a chuva castiga, como simbologia de serem enviados aonde não chove e pedidos de que concertem o que faz desmoronamentos acontecerem. Tão possível, tão transformador muito provavelmente.

    Que não se jogue lixo nas ruas para não entupir bueiros, que grupos limpem suas ruas e cobre a limpeza pública. Que o Rio, São Paulo e Salvador parem em um dia de carnaval, ninguém sai de casa enquanto um listinha básica não for atendida. Governantes, grupos privados, empresários na parede pelo que é inadmissível em tempos de tantas possibilidades, acesso, recursos para soluções.

    E tenho dito!

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    1. Adoro seu otimismo "pé firme". Concordo totalmente, é por incompetência de quem deveria cuidar e zelar, mas se interessa em enxugar gastos pra aumentar o lucro. Lucro as custas da sede do próximo. Aonde já se viu?

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  3. Luís Fellipe, texto reflexivo, até parece que o tempo nem passou quando se trata dos problemas, tanto das secas contadas em Vidas Secas, quanto do contrário quando se vê as cidades sendo alagadas.
    Uns rezam para chover outros desesperados com as enchentes e ficam em alertas sem poder dormir!
    Que pena que ainda vemos tudo isso num imenso País rico, muito rico e desgovernado!
    Abraços, gostei de ler!

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    1. Pois, então, minha amiga. Num país de dimensões continentais, o que nos confere suscetibilidade a eventos do tipo. E até hoje nada concreto foi feito. Enquanto isso, vidas pagam.

      Abraços, obrigado pela visita!

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  4. Em Pernambuco começa em maio, ninguém espera por novas precipitações. Essa diferença entre a seca e os seis meses periódicos sem chuvas, muitas vezes, é de difícil compreensão para os que não conhecem o sertão.
    Beijos, ótima postagem

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    1. Sabia muito pouco sobre isso, levei em conta as histórias lidas e assistidas. Errei nos termos, mas acredito que tanto a seca quanto a estiagem possam ser preocupantes.

      Beijos, obrigado

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  5. Dói ver a imagem do início da postagem. Tenho medo de me acostumar.
    Somos um país de pequenas catástrofes naturais e imensas humanas, no poder público especialmente, em nós que mostramos uma força colossal ao tomarmos as ruas e depois esmorecemos porque já vem aí o carnaval.
    Posts como este nos sacodem. Não deixa que seja uma imagem a mais sobre a seca ou sobre a s enchentes que estão de passagem marcada para bem próximo.
    Indignar-se já é algo.
    Beijo

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    1. Não ganharemos credibilidade enquanto o gigante que tanto comentaram, acordar, tropeçar, cair e dormir de novo, não é?
      Também tenho medo de me acostumar. E a imagem dói (e dói ainda mais ver tantas reunidas na hora da pesquisa)

      Beijo

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  6. Deplorável essa situação.
    Estamos acabando pouco a pouco com o mundo. E ainda muitos não se deram conta disto.

    tenha um ótimo dia =)

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    1. Muita gente não se dá conta, outras têm medo de sair de suas zonas de conforto... São os ignorantes do Leblon que fala Drummond em seu poema de mesmo nome...

      Obrigado pela visita e ótimo dia!

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  7. Enquanto o gigante dorme, os anões morrem...
    Fellipe, não sei, gostaria de estar completamente errada, mas eu não levo mais fé. Deu-se em mim o desencanto. Acho que foi por ter acreditado demais numa certa época...
    Veja, ontem pensávamos numa coisa, hoje aconteceu outra...

    Beijo, amigo!
    Gostei do texto; o negócio de duvidar do nosso país é comigo, infelizmente.

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    1. Não acho que esteja errada... Cada um de nós vê de uma maneira e vejo que passar muito tempo acreditando e vendo a coisa piorar, pode levar a fé pros ares.

      Beijo!

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  8. Olá Luís
    Realmente, o crescimento econômico da região ofusca o interesse pelo problema da seca que existe e é tão destruidor quanto uma grande tempestade e há mto sofrimento por conta disso. legal vc ter chamado a atenção para isso, pq é como se todo o país ficasse de costas para essa dura realidade.
    gde abrss
    Blog Fernu Fala II
    Meu Twitter - Fernu

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    1. Fernando, é como vejo o país agora... Meu professor de geografia disse certa vez com um entusiasmo que o Nordeste produzia frutas. Mas e daí? O pobre continua sem benefício algum.

      Obrigado pela visita e seja bem vindo!

      Abraço!

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  9. Fê, desde muito jovem eu ouço falar da ‘indústria da seca’. Dinheiro público jorra e a água nem pinga. É como vc disse, nos acostumamos tanto a essa realidade que nem registramos as notícias de poucos segundos na mídia. Quem se importa, a seca do nordeste é obra da natureza, do destino, ela sempre vai existir... Não é assim que estamos condicionados a pensar?

    Soluções mirabolantes surgem em época de eleição, e depois caem no esquecimento, pois não há interesse em acabar com essa ‘fonte de renda’. Ao sertanejo nordestino só resta mesmo um milagre, é o que eu penso.

    Excelente sua crônica, está de parabéns! Mostrou que se importa. Se nada podemos fazer de prático, vamos botar a boca no trombone! Eu amo o nordeste, muito me entristece o flagelo de um povo tão hospitaleiro, alegre, talentoso... Recentemente publiquei um poema sobre a seca no nordeste, e essa sua crônica carregada de tão nobre sentimento me inspirou a escrever mais sobre o assunto.

    Bjão procê!

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    1. Sueli, estamos mesmos condicionados a pensar dessa maneira. É o senso comum que invade e se espalha pelo território. E essa ignorância permite que a fome, a sede, a miséria permaneça. Existem dados cruéis, também, sobre o saneamento básico dessa região e do Norte do país. É assustador. E enquanto isso, temos a balança do ouro voltada para a política: políticos gastando com ternos e restaurantes e mandando a conta pros cofres públicos pagarem.

      Beijo e obrigado pela visita!

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  10. Entrei aqui por acaso. Vi a imagem do início, interessou-me. Resolvi sentar e ler. E, no final, tenho que falar:
    Excelente crónica!
    Embora viva a alguns milhares de quilómetros de distância, tenho perfeita noção do que é a seca no nordeste brasileiro (tenho muitas amigas e amigos brasileiros, com quem me correspondo, por email, diariamente).
    Todos sabemos que a Natureza, de vez em quando, nos "oferece" catástrofes terríveis. E, ao contrário das secas, aí estão as inundações, para nos mostrar que talvez o clima não esteja muito bem distribuído:).
    Mas... não há nada que se possa fazer para prevenir/remediar/minimizar os efeitos dessas catástrofes??? Qualquer pessoa responderá que sim, há muito que pode ser feito. Só que, quem de direito, se esquece... e isso é muito grave.

    Espero que não leve a mal este meu comentário... e, se mo permite, virei mais vezes a este espaço que tanto me agradou.
    Vou fazer-me sua seguidora, para não lhe perder o rumo.
    E se quiser conhecer o meu cantinho... terei o maior prazer nisso.

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    Mariazita
    (Link para o meu blog principal)

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  11. Não há interesse político para solucionar (ou, ao menos, amenizar) a seca no Nordeste, assim como tantos outros problemas nas outras regiões do Brasil, uma vez que a carência da população, infelizmente, sustenta o privilégio de uma minoria.

    Parabéns pelo excelente texto!...

    Abraço!

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Obrigado!




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