sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sublimes versos na porta





Quando o buraco no peito atingiu o máximo limite, ou o que parecia ser o topo, era hora de seguir a rotina. Como muito se diz, a vida não para pra socorrer os seus problemas. Ele sabia disso. Devia horas no trabalho, devia uma satisfação mínima, alguns telefonemas. Mas essa era uma preocupação pequena se comparada à grande escalada que vinha pela frente.
Passou a madrugada fitando o rádio relógio no criado mudo, mas não se importava com as horas que corriam. Seu pensamento não era estrondoso como havia sido dias antes, quando culminou aquela dor. Era vazio, frio, estancado. Lágrimas, nem mesmo em vapor. O estoque estava negativado. Sua cama era pra dois, mas parecia nem ser ocupada. O edredom vinha até o pescoço, as pernas estavam curvadas ao máximo, como um ser indefeso que acaba de sair do casulo, seja ele um ovo ou o ventre.
Era hora de levantar. Fez tudo mecanicamente, embora tivesse passado dias inteiros em sua cama. A manhã era nublada, ainda, o que ele sempre odiou. Estava indiferente a isso, mas seu subconsciente captava aquele dia cinza e absorvia insatisfação. Deixou que a cafeteira fizesse café e resolveu não usar o açúcar. Mas o gosto era amargo, tão amargo quanto o momento. Visualizou a açucareira e também uma sociedade organizada de formigas que entravam, habitavam e saiam do pote aberto. Imaginou como elas pareciam felizes, livres de problemas, porque nem mesmo predadores reais elas tinham por ali. Será que alguma delas já havia passado por uma decisão difícil? Animais também têm que decidir. Ou não? Ele estava com o cotovelo apoiado na pia, os olhos bem próximos do pote. Acordou da reflexão, engoliu o resto do café amargo e pegou as chaves.
No trajeto rotineiro pouco havia mudado. O trânsito permanecia lento, havia obras que impediam seguir por uma faixa. Na frente, formava-se o horizonte de prédios variados em formas, tamanhos, cores e janelas. Em um deles estava seu trabalho. Tinha cargo importante, era funcionário de excelência. Nunca foi funcionário do mês, pois era do ano todo. Um braço direito. Uma confiança extrema. Mas foram quinze dias sem das notícias quaisquer. E justamente quinze dias em que a empresa afundava num problema que só ele resolveria. O superior estava disposto a desculpá-lo. Mas com aquelas mentiras e desculpas pouco convincentes? Ele, que passava pelo RH para cumprimentar as colegas de trabalho diariamente, agora ia para se despedir. Não ficou nem uma hora no prédio, já fazia o caminho de casa. No banco de trás, a famosa caixa dos pertences.
Deixou o carro estacionado numa rua qualquer, avistou o viaduto que passava por cima de uma avenida movimentada e seguiu por sua passarela assegurada apenas por um guarda corpo com o mínimo de proteção. Lá embaixo, os carros na via e as pessoas nas calçadas. Uma mãe passava com o carrinho de bebê por entre o fluxo que vinha em direção contrária, e protegia a criança do vento úmido daquele dia. Seguiu a mulher com o olhar e a viu encontrar-se com um rapaz, que tirou o bebê do carrinho e deu-lhe um beijo na bochecha rósea. Era o pai. Homem e mulher se abraçaram e ali estava a família perfeita. Em meio a tanto caos, buzinas, gente por todo lado. A família sumiu de seu campo de vista e agora os carros enfileirados chamaram mais a atenção. Olhou através dos automóveis e viu um espaço para si no asfalto escuro e duro. Desapertou a gravata, respirou fundo e colocou o pé no primeiro tubo do guarda-corpo, enferrujado e até um pouco fraco para aguentar o seu peso. Estava na iminência de tirar o outro pé do chão para completar a escalada no tubo, quando o seu celular tocou. Era uma mensagem. Desceu ao chão novamente e tirou o celular do bolso.
Prezado cliente, evite o cancelamento de sua assinatura de internet. Atualize seu boleto e pague em qualquer agência bancária até o novo vencimento.
Balançou a cabeça, desacreditado. Viu-se como o maior idiota naquele instante, prestes a saltar da vida, interrompido pela mensagem mais chata do telemarketing. E não passava de uma cobrança, que nem mesmo citava seu nome. Porque era apenas um número. Um cliente, um cadastrado. Um número que tentou se matar. Francamente. Não tinha coragem de fazer uma tatuagem e por segundos pensou em se matar? Riu de si mesmo, riu muito, gargalhou ali sozinho, com a gravata afrouxada. Deu chutes na grade, respirou raivoso. Ao retornar ao carro, ligou o som. Encontrou uma música triste; chorou muito, ainda que as lágrimas fossem escassas. Pensou que, naquele dia, finalmente poderia começar a acertar a vida. Mas não conseguiu. Parecia regredir, se sentia imerso naquelas horas que, como bolas de chumbo, pareciam estar presas aos seus pés.
Voltou ao apartamento. Foi direto a cozinha, na cafeteira, tomar um pouco do café amargo. Mas, ao passar pela açucareira, notou que estava tampada. Abriu a tampa, curioso, e viu os cristais de açúcar limpos, sem sinais de qualquer inseto. Observou a cozinha a sua volta, estava limpa e toda arrumada. Correu até a sala, por onde já tinha passado sem notar a perfeita ordem. Não havia sapato e roupa jogados, nem mesmo os remédios espalhados pela mesa de centro.  Não podia acreditar. Por isso, balançava a cabeça, desconfiado. A próxima parada seria em seu quarto. Aquele que recebera e assistira toda a dor do seu condenado.
Na porta, um papel afixado com versos de Drummond, escritos a mão.

“Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
                                                       [a tristeza, a ignorância e o preconceito, também.]

Drummond foi quem disse, meu amor. Eu só acrescentei.”
Abriu a porta vagarosamente.
Quando estava toda aberta a porta, seus olhos deram de encontro com sua cama ocupada. Estava parado, ali, como um morto em pé, acabado, destruído. Mas na iminência de sorrir e chorar e sorrir e chorar e sorrir. O que faria? Antes que pensasse, a outra voz dentro do quarto tomou a cena.
- Eu não vou deixar você abrir mão da sua felicidade. E nem as formigas carregarem seu pote de açúcar.
Riram e se beijaram.
Lá fora, o sol aparecia entre nuvens. 


Luís Fellipe Alves (Conto)

10 comentários:

  1. Que lindo, ninguém quer perder um amor.
    O amor colore nossos dias de alegria, e humor.
    Sem ele ou na ausência dele parece que toda cor vai embora.

    Adoreiiii!!

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    Respostas
    1. Oi, Bell!
      Com certeza não... As lembranças descolorem, também. E ficam tristes, mesmo sendo boas.

      Brigadão pela visita, bom final de semana!

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  2. Bom dia Luís Felipe! Um prazer conhecer você, e seu blog.
    Através do blog de minha amiga Dorli, cheguei até você. Li seu conto magnifico, com uma imagem merecedora de sua história, muito lindo. Você escreve divinamente bem.

    Tenha uma sexta-feliz!

    Bjs na alma!

    Maria Machado

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  3. Viu que tudo dá-se um jeito. Não dá é para desistir da vida. Isso nunca. Não é justo com quem fica, e é exemplo de luta.
    Gostei do texto inspiradíssimo. Ótimo fim de semana! :)

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  4. É sempre uma mensagem assim, né? rsrs tim informa, claro cliente, vivo promoções hahahah....quer me deixar pior que criança que viu o doce cair no chão é achar que recebi um sms de alguém e qdo vou ver é alguma publicidade rs.... brincadeiras a parte...

    Maior alivio que esse não há, de achar que tudo mais não vai ter milagre que arrume, só se espera uma simples volta, um sinal de vida, sem muito acreditar e de repente, la está de volta o único detalhe que importava, o resto era só figuração! :D

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  5. Gostei do Drummond 'sublinhando'
    a tua história de amor.
    um grande abraço

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  6. Oba! Um blogueiro novo no meu blog. Legal. Porque vou vir conhecer, bem direitinho, seu blog.
    Não ler só uma postagem não é interessante.

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  7. Vim aqui por vezes, a miúdo ler seu post, mas mtas coisas ao redor nos momentos que estou no PC, me impedem de ter a concentração necessária.

    Doçura todos os dias, nas tristezas e nas alegrias, não se deixar, não deixar o outro, permitir que o outro, se permitir, inventar e reinventar. A vida acontece a todo instante.


    Sempre bons seus comentários por lá
    No concurso sorte, além da experiência já obtida, da minha candura por ter sido lembrada e da porta aberta e janelas escancaradas para quem faz da leveza e da esperança moradas.

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  8. Oi Luis
    Tá ficando conhecido...kkk
    Lindo conto.
    Você tão jovem já é um grande contista
    Você é o cara!
    Um beijo
    Mundo dos Inocentes

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Obrigado!




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