sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Bom Espírito





Dia desses alguém me contou que o Espírito Natalino é um anjo. Um anjo que trabalha 365 dias por ano, mas que só ganha uma atenção (meia-boca) nos últimos 30. Esse nome, “Espírito Natalino”, é um apelido mal  colocado. Sugere que o coitado deixa a labuta só para o finzinho. E na verdade, não.
O Bom Espírito (anota aí, esse é o seu nome oficial) é quem acompanha os meninos de rua a pedirem Boas Festas. Enquanto o garoto bate no portão e pede um trocadinho, ele faz uma força imensa em mostrar para o dono da casa o quanto seria válido não só dar um trocado, mas uma atenção especial ao caso, àquela vida tão constrastada
O trocadinho até vem. Mas indiferente, sem valor. A pessoa não passa mais que dois minutos pensando na realidade do garoto de rua e volta pro Chester e pra rabanada, sem maiores culpas.
Se no Natal o trabalho do Bom já é um desafio, quem dirá no restante do ano. Sabe aquela época em que começam as campanhas do agasalho, ou então o estoque de sangue dos centros de coleta entram em colapso, ou até quando se faz um eventinho beneficente? Pois é. O Bom está em todas. Corre dum lado pro outro, se esfola, se desgasta, perde o fôlego. E só alguns poucos é que dão atenção.
Boatos também dizem que o Bom quer se aposentar. Não é difícil chegar à conclusão de que se isso acontecesse, o mundo estaria completamente perdido. Mas o Bom não desiste nunca, exceto por uma situação. Me contaram que um dia lhe fora questionado o posicionamento sobre as pessoas. O anjo abriu um grande sorriso e respondeu:
- Todas, sem exceções, podem mudar. É por isso que eu nunca desisto delas.
Não era uma coletiva de imprensa (felizmente, porque o Bom anda muito cansado), mas sei que ele também disse:
- Enquanto houver uma pessoa lutando, eu estarei do lado.
- Mas e se ninguém mais acreditar?- Questionaram-no.
- Se ninguém acreditar, eu automaticamente deixo de existir.
Ao ouvir essa parte, minha apreensão ficou maior. Diria até que me assustei, como se me contassem uma história de terror. Fazia certo sentido o que respondera o anjo. Mas, até aquela parte da história, não havia percebido do que se tratava o Bom.  
Questionaram o anjo, também, sobre o dinheiro. Por que as pessoas acreditavam mais nas notas do que nele?
- Porque cada um de vocês foi treinado para ser assim.
Infelizmente, Bom. Infelizmente...
- E os Papais Noéis? O que são?
- Não passam de velhinhos vestidos de vermelho trabalhando em shoppings centers e outras áreas. Fazem um trabalho bonito de encantar as crianças. Mas é uma pena que eles perguntem “O que você quer ganhar de presente?” ao invés de perguntarem “O que você quer dar de presente ao mundo?”...
Pois bem. Para que não restem dúvidas, seguem algumas informações que fiz questão de perguntar a quem me contava a história. O Bom não tem valor monetário, não se compra no mercado e não há simpatia de Ano Novo para convoca-lo. Guarde as suas sete ondinhas pra outra coisa. O anjo não cai por chaminés, não tem renas, nem trenós. Não adianta esperar que ele apareça e que fique pra ceia.
E o anjo disse mais:
- As pessoas pedem um ano melhor, se vestem de branco, fazem um milhão de simpatias na virada do ano. Mas não têm sequer uma estrutura fortificada para sustentar toda a energia que estão pedindo. Passam o ano recusando dar trocadinhos, dar abraços. Sentar ao lado de um velhinho para ouvir uma história ou de um morador de rua que quer saber se existe. Objetam-se a ser voluntários se isso não for render ao menos um certificado, uma carta de recomendação. Brigam com vizinhos de casa, de trânsito, de país. Utilizam o dicionário da crueldade mais do que o da benevolência. As pessoas estão entrando em uma cadeia da descrença. Não há mais tolerância, confiança, afeto, paciência. Não há. E à medida que todas essas energias vão desaparecendo do mundo, meu trabalho se dificulta. Uma pessoa que deixa de acreditar em mim tem chances pequenas de voltar.
Assim como quem me contou, fiquei calado por um tempo, sem olhar coisa alguma, vendo através daquela história, que atingiria seu apogeu logo em seguida, quando o anjo disse suas últimas palavras àquele que me relatava:
- Eu sou a Esperança. A última que morre, depois do último que deixar de acreditar.
E tudo ficou claro.
Quando terminei de ouvir aquela história, senti que era meu dever fazer desse final de ano um portal para uma nova vida. Deixei, a partir daquele instante, de guardar a esperança dentro de mim e passei a vesti-la todos os dias, por mais difícil que fosse. 

***
A todos um ótimo Natal e um excelente 2014, sobretudo, de muita esperança.
Grande abraço e até o próximo ano!
Luís Fellipe Alves

12 comentários:

  1. Esperança

    Espiritualidade
    Afetividade
    Paciência
    Presença
    Participação
    Emoção
    Envolvimento
    Movimentos
    ...

    Que no dia ou noite de Natal não esperemos pedintes batendo na porta para dar um alimento a quem precisa, levemos a alguém que não espera na rua, numa casa pobre com um sorriso e sopro de esperança

    Que não esperemos um 2014 FAÇAMOS!

    A vc e vó Valdice meu carinho e cantos de passarinhos.

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  2. De ficar calado diante de tão belo texto.
    Adorei a pergunta que Noel deveria fazer às crianças: o que você quer dar de presente ao mundo?
    E a nossa estrutura para sustentar tudo o que pedimos? O Bom Espírito deve mesmo prevalecer em todos e qualquer dia.
    Um beijo!

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  3. Luiz, ótimo texto, onde a reflexão se faz presente .Neste Natal de 2013 e no Ano Novo de 2014 compartilho meus votos de felicidade e agradecimento por tudo que consegui ao longo deste ano que já está acabando e faço meus votos de felicidades e muita prosperidade as pessoas com quem quero compartilhar minha vida nesta nova jornada que se inicia no dia 1º de janeiro.
    Beijos , tudo de bom

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  4. Texto maravilhoso, simples de entender, bem assim é o viver, enquanto há esperança tudo é de se continuar, sem lutas, pois viver não é lutar, viver é deixar a vida natural se expandir de foma também assim, natural.
    Não peço nada, nem pulo ondas, nem faço simpatias, acredito só na vida simples de todo dia, como diz o
    anjo do texto, o Bom, se se pede muito há que se ter como sustentar tamanha anergia das coisas pedidas, adorei a parte que o velhinho papai noel deveria perguntar "O que você quer dar de presente ao mundo?" Amei!
    Texto rico, parabéns!
    Abraços e obrigada pelo carinho de sua visita, aproveito aqui para lhe desejar um Feliz Natal, com alegrias da alma e que se expanda à todos os dias do novo ano!

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  5. Na impossibilidade de dirigir a cada amiga/o uma mensagem de Natal personalizada, escrevi umas palavras muito simples mas bem significativas do meu sentir:

    “Neste Natal gostaria de trazer-te:
    O verde da árvore – a cor da Esperança;
    E, das bolas coloridas:
    - O vermelho – a cor do meu Amor fraterno;
    - O azul – a cor da suavidade dos Anjos;
    - O dourado – a cor da prosperidade que te desejo;
    - O roxo – a tristeza que sinto quando não te vejo;
    - O branco – A Paz que quero para a tua vida.
    No tanger dos sinos ouve a minha voz pedindo protecção para ti e toda a tua família.
    Seja onde for que te encontres deixa-me ser um pouco do teu Natal.
    Mas… acima de tudo, desejo que, na tua noite de Natal, o “Menino” não tenha que perguntar:
    - Então e eu? - (V. minha postagem de 27/12/2009 – NATAL DE QUEM?)

    Mil beijos natalícios
    Mariazita
    (Link para o meu blog principal)

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  6. Fellipe, enquanto lia sua crônica foi me assaltando certos pensamentos. Você já se deu conta de que todas as festas precisam de fantasia? É o coelho que traz ovos de chocolate; o velho de vermelho que vem de saco cheio - de presentes; o Ano Novo e suas 7 ondas e roupa íntima amarela - prosperidade. A cegonha que traz a criança; o Carnaval que nada tem a ver com a data. Tudo deturpado, um engôdo. Quando criança, vá lá... mas a gente cresce, passa para os filhos e a roda não termina nunca! Cansei. Talvez porque meus filhos não são mais crianças e eu adquiri mais consciência e não pretendo levar adiante tantas fantasias. Não tem dúvida de que estou mais objetiva, mudanças, amigo... Mas o tal de Espírito Natalino... boa essa, não? Um espírito que some num vapt-vupt!
    Bela sua crônica, assino embaixo.
    Beijão.

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  7. Tais,
    O papai Noel é um dos maiores incentivador do consumo capitalista.
    A fantasia existe para a alienação das crianças mais carentes.
    Luís, palmas, muitas palmas, é um bom texto.
    Beijos!!!

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    1. Concordo, sim, Janice. O único que lucra nessa 'festaiada' hipócrita é o comércio.
      E não muda nunca!

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  8. Acredito na força do pensamento! Podemos construir e mover montanhas! É a fé! Podemos ser todos um Bom velhinho! Ele existe dentro de nós, mas é preciso acreditar! Obrigada, Fellipe, pela companhia e pelo carinho! Que seu Natal seja azul e encantado! :)

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  9. Fê, bastante impressionada aqui com a sua crônica, sobretudo sobre o que vc fala da criança de rua. Muito triste, elas são invisíveis, barganhadas por qualquer coisa ‘que incomode menos’, que dê menos trabalho, se é que vc me entende... O pouco que se fizesse seria muito para quem não tem nada. Eu já cansei de tocar nesse assunto, é como jogar palavras ao vento que retornam a mim como críticas.

    É como vc diz o ‘Bom’ sempre está presente, basta olharmos ao redor, mas quem olha? Tenho no meu FB uma amiga voluntaria que fundou uma ONG que dá apoio às crianças com leucemia. Toda Páscoa, Natal, dia das crianças, ele prepara uma postagem pedindo doações de 10 reais, (DEZ REAIS APENAS!!!) para fazer a festa da criançada, e pede tbm que compartilhem a postagem. Sabe quantos fazem isso?... No último dia das crianças somente eu colaborei e + uma compartilhou, além de mim. Isso foi o que ela me relatou.

    Fico aliviada em saber que não sou a única a achar que o Natal é um engodo, um tentativa inútil das pessoas demonstrarem que se importam umas com as outras, apenas para se enquadrarem no ‘espírito natalino’, tudo da boca pra fora, uma farsa hipócrita.

    Nós aqui não comemoramos nada, aliás, comemoramos sim, o ano todo, a alegria de sermos uma família feliz, unida no amor e respeito mútuos. Somos festeiros, né, como bons italianos rsrs, não precisamos de uma data no calendário.

    Bem, depois desse meu ‘espírito natalino’ tão caidaço (rsrs) só me resta desejar a vc e família um final de ano magnífico e um 2014 produtivo, repleto de alegrias, realizações, paz e amor de montão, muita saúde, enfim, muito TUDO!!!

    Mandou muito bem nessa crônica, a melhor que li até agora sobre o tema!

    Bjão procê!!!

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  10. Olá Luis
    Mto bom seu post.
    Infelizmente a figura do Papai Noel nada mais é do que um ícone do capitalismo consumista e apesar de isso ser um clichê, é verdade. Ele chega, dá o presente e vai embora. Queria que o Natal fosse a época em que a gente se importasse mais com o próximo, com o necessitado e fizesse algo para melhorar a vida deles.
    Grande abraço
    Blog Fernu Fala II
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  11. Luís seu texto é tão enriquecedor . Minha alma agradece . Que a esperança resista . Em mim sempre está . É mesmo a luz necessária para sempre continuar . Um abraço . Um bom
    ano novo pra você com muita saúde .

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Obrigado!




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