quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Estante vazia





Delinquente. Marginal. Criminoso. Ladrão.
Uma maioria assustadora da população preferiria se munir e lançar esses adjetivos a se inteirar do contexto em que tudo aconteceu. O garoto cometeu seus erros, roubou livros de uma livraria de Salvador. Mas será que ninguém pode ir mais fundo na análise do caso?
Apesar de os dados provarem que o brasileiro tem lido mais, um livro não é bem uma mercadoria que seria escolhida para um furto e possível comercialização ilegal. Então por que roubá-los?
Para ler.
Por que é tão difícil encarar que a periferia queira fazer parte do mundo da literatura? Que contato eles têm com os livros senão aqueles poucos disponibilizados pelo estado no material escolar? A fome por livro não é algo que possa ser bem explicado. E quem aqui tomou o Biotônico Fontoura da literatura sabe muito bem disso.
Uma boa viagem na história já faz uma diferença enorme. Quem acompanhou, mesmo que superficialmente, os tropeços que este país teve nos caminhos errados que tomou, consegue ver que não é apenas um caso de roubo. O passado construiu uma nação vulnerável, infestada de problemas sociais. O resultado é essa segregação, atingida em vários sentidos.  O país criou os seus marginalizados. Criou a opressão a uma parcela de sua população, que permanece na linha de pobreza a perder de vista. De um lado, um livro com impostos gritantes. De outro, mais um de vários garotos que, até para sonhar em ter um livro na estante, sente medo de ser cobrado.
A força exigida para mudar uma realidade como essa é muito maior do que a aplicada ultimamente. Muitos projetos saem do papel, sim. Mas conquistam a invisibilidade logo adiante e perdem a força necessária para prosseguir. E essa força não depende somente dos profissionais de áreas relacionadas. Depende do engajamento de muitos que possam contribuir com o tempo, com a dedicação, com um livro, com as palavras.
Uma maneira básica de contribuição: um testemunho de como os livros mudaram sua vida. Pois bem, serei breve no meu e um dia posso estender as outras histórias. Meus primeiros livros me ensinaram a respeitar o próximo e as suas decisões. Lia histórias diárias sobre animais que falavam e davam verdadeiras lições sobre encarar os desafios. Aprendi que os brinquedos merecem carinho e tratei os meus com muito cuidado. E hoje, a leitura continua a me transformar. Seria maravilhoso se todos tivessem a mesma oportunidade.
Infelizmente, o garoto cometeu um erro. Isso não justifica, porém, a objetividade em penalizá-lo sem uma análise mais concreta da situação. Há uma gama de outras soluções que dariam um resultado muito satisfatório. Um final feliz de livro mesmo, como esperançou Ana Paula em seu blog, há alguns dias. Melhor do que qualquer notícia sobre a situação, uma verdadeira história que bem poderia se tornar realidade.
Não vamos esperar uma estrela cadente para fazer desejos por esses jovens. Sejamos, nós, suas estrelas cadentes. 
Luís Fellipe Alves

11 comentários:

  1. Sejamos estrelas guias
    Desejosos e provocadores de alegrias
    Sejamos alimento onde não há prato nem pão
    Sejamos sol, abraço, presença onde há frio e solidão
    Brisa onde há calor e não se tem acesso a ar-concionado e ventilador
    Sejamos as letrinhas da sopa que não dão sabor
    Mais fazem sonhar, viajar, acreditar
    Questionar, solucionar
    E alcançar um mundo melhor e mais igual
    Menos garotos presos por roubar livros ou comida
    E mais combate e exposição de quem é realmente mal
    Além de politicagem, baixaria e carnaval

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  2. Tem muita cidade que nao tem biblioteca... como assim?!? o_O

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  3. Cresci lendo livros, não os comprava, eu tomava conta de uma livraria (da minha madrinha) na hora em que chegava da escola, assim com o meu "trabalho" pude ler, mas também os pegava emprestados nas bibliotecas, eram poucas na época, mas eram as que eu recorria, portanto nada pode justificar furtos, enfim...
    São opiniões, hoje em dia estão justificando quase todas as transgressões! Que pena que é assim!
    Abraços meu amigo Luís!

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  4. Só pra completar sem poetizar...

    Acho que não ter no brechó o modelito da moda, nem no mercado a fragrância da estação ou na biblioteca livros mais atuais ou até mesmo onde não tem bibliotecas (tantos lugares, tantas de fachadas, fechadas ou a kms de distância), não é motivo para roubar. Nada é motivo para roubar
    Para um filho morrendo de fome, pede-se esmolas, carrega-se sacos, colhe-se ou pesca-se ou cacça-se algo. Para comprar outras coisas também.
    Mas acho que o viés é a notícia com poucas informações e a revolta pelo que não se noticia, os grandes peixes que não pescados ou mantidas suas apreensões, além do lado reflexivo, poético, filosófico e social da abordagem lá na Ana e aqui.
    É isso!

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  5. Revolta pelo que não se noticia, como bem pontuou a Tina.
    Talvez maiores esclarecimentos, que evidente não justificam, mas talvez acordassem autoridades, gente benevolente que faz bibliotecas circularem.
    Tantas possibilidades...
    adorei teu texto! Beijo

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  6. Eu li o post eu queria terminar logo, o modo como você conduziu as palavras fez com que "ler" passasse de um passatempo para um virtude.
    Adorei o artigo e o blog.

    XOXO :D | Joven Clube

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  7. Blog encantador,gostei do que vi e li,e desde já lhe dou os parabéns, também agradeço por partilhar o seu saber, se desejar visitar o Peregrino E Servo, ficarei também radiante
    e se desejar seguir faça-o de maneira que possa encontrar o seu blog, porque irei seguir também o seu blog.
    Deixo os meus cumprimentos, e muita paz.
    Sou António Batalha.

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  8. Infelizmente o mundo está num ponto que sempre alguém comete um erro e sempre alguém passa a mão sobre a cabeça. Lindo te ler..Mas há vezes que não podemos ser estrelas a iluminar, erros devem ser pagos! abração,chica

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  9. Texto trás a tona um assunto o tanto polêmico, acho que para ler, para se ter cultura não é necessário se ter dinheiro, a questão é, para se ler, para ser admirado de um tipo de arte basta o fazer. Vi uma reportagem onde mostra projetos de bibliotecas públicas sendo instaladas em favelas e outros tipos de lugares que vivem pessoas carentes, acho que um livro pode vim a mudar a mente de uma pessoa, na verdade de várias, e sem deixar de mencionar que ocupa a mente.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  10. Com tantas bibliotecas oferecendo leituras, não tem o porquê roubar, nada justifica. Mas também comparando roubar um livro para ler, com bandidos que assaltam os cofres públicos em milhões e nada é feito, estão soltos por aí repetindo o mesmo ato... é de pensar em pelo meno não punir quem roubou um livrinho: 'ensinar'.
    Levá-lo numa livraria e deixá-lo escolher a vontade...Quem sabe daí não sairá um cientista?
    Dá para pensar numa boa causa...AJUDAR.
    Beijos!

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  11. Luís Fellipe, fui seguindo os links de seu blog e fui parar lá na Ana Paula, onde comentei sobre este assunto, e então retornei aqui para contribuir, resumidamente, com meu testemunho a respeito de como os livros mudaram minha vida: descobri os livros aos seis anos, numa biblioteca minúscula, onde mal cabia uma única estante com livros e eu sentada, bem quietinha - pois se me mexesse derrubava a estante. Era uma escolinha rural. E ali mesmo, naquele cubículo, descobri o mundo. Tudo que sei, tudo que sou hoje, todas as experiências que tive na vida até aqui me remetem àquele cantinho mágico, que se transformava e absorvia o mundo sempre que um livro era aberto. Eu realmente amo os livros e sei que a leitura molda uma pessoa, abre seus olhos, desperta todos os seus sentidos, e a faz ultrapassar limites que de outra forma a aprisionariam.
    É isso, meu amigo. O restante foi tudo dito por ti.

    Um forte abraço.

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Obrigado!




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