sábado, 18 de outubro de 2014

Sobre e-mail, contas, etc.

Pessoal, quando comecei o blog (não sei porque cargas d'água) eu tinha dois e-mails diferentes. Um deles era o login do blog, ou seja, carregava toda a minha conta Google a que o blog estava associado e o outro era um e-mail que levava o nome do blog, que eu divulguei no rodapé para comunicação. Para fins de simplificação dessa situação, resolvi fazer umas mudanças e eliminar um dos e-mails, e escolhi justamente o que carregava o blog. Então, transferi a administração do blog ao e-mail cronicalize@gmail.com. Como consequência, precisarei seguir os blogs novamente e farei isso com o tempo. Meus comentários antigos nos blogs de vocês não os trarão mais ao Cronicalize, por causa dessa troca de administração. Porém, clicando em meu nome nos novos comentários, poderão encontrar o link do blog. 
Sei que minha assiduidade está precária e que muitas pessoas deixaram de visitar o blog por conta disso, mas acredito que logo eu consiga estar mais por aqui.
Abraços, 

Luís Fellipe Alves

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Megasmartphone







– Carlos? Que surpresa!
– Hã... Quem é você mesmo?
– Pedro. Do colégio. Lembra?
– Não pode ser verdade. – Carlos balançou a cabeça algumas vezes.  – Você diferente, cara! Todo charmoso, de terno, sem aqueles óculos fundo-de-garrafa que deixavam seus olhos parecendo olhos de...
– Et. É, eu me lembro disso. Uso lentes agora.
– Engraçado te encontrar no shopping. Não era sua praia na época do colégio! Mas também, já faz mais de vinte anos isso! E o que você tá fazendo da vida, cara?  Dando aulas de matemática pra crianças? – Carlos nunca largava sua acidez.
– Na verdade, não. Dou aulas na Universidade. Mas é sobre reintegração social. – Bastou que Pedro olhasse dois segundos para o lado e Carlos já estava agarrado ao megasmartphone. Um supercelular, espessura mínima, funcionalidade e interatividade máximas. – Carlos?
– Opa, desculpa! Tava conversando com minha garota.
– Imaginei... Quem é sua garota, alguém da época do ensino médio?
– Não! É aquela que vem nos sistemas operacionais, sabe? O nome dela é Megan.
– Meu Deus. – Sussurrou Pedro.
– O que você disse?
– Eu só estou um pouco surpreso. Você era tão descolado na época do colégio, tinha mil e uma garotas atrás de você e agora você se relaciona com um sistema operacional?
– Olha em volta de você, cara. vendo alguém desgrudar disso aqui? Ninguém quer mais nada comigo, não. Sistemas operacionais são baratos, eficientes, não pedem presentes caros, nada além de uma atualizaçãozinha que custa no máximo uns 20 dólares por semestre. Te acorda na hora certa, dá bom dia com carinho, beijinho pelo sensor de tela. É maravilhoso. Eu amo!
– Uau, tentador... – Respondeu Pedro ironicamente.
– Mas e aí, o que é essa tal reintegração social? Esse nome me dá sono. Nada pessoal...
– É o campo em que eu trabalho. Vai além da Universidade. Eu estudo uma maneira de... Você está ouvindo?
– Sim, cara. É que a Megan é possessiva, quer minha atenção o dia todo. E se eu não der atenção, ela me castiga. Mas pode falar.
– Uma maneira de fazer as pessoas voltarem a se socializar no mundo real. Sem celulares e computadores o tempo todo. Eu mesmo não tenho um.
– Um relacionamento?
- Não, não. Um megasmartphone. Relacionamento eu ainda tenho um de verdade.
- Você é um babaca. – Disse Megan. Carlos deu uma pequena risada e se desculpou de Pedro.
– Sem problemas. Como eu estava dizendo, sistemas operacionais não são a melhor fonte de relacionamentos e podem ser prejudiciais para o convívio social.
– Prejudiciais? – Retrucou Megan. – O que você está querendo fazer? Arruinar o meu namoro?
 Claro que não. Você nem tem uma vida de verdade. Você é um sistema operacional enxerido.
- Pelo menos minha vida é feliz. E a sua, mané? O que você faz? Dá aulinhas, volta pra casa e janta com sua esposa feliz, que na verdade só está fingindo que tem saco pra escutar tudo o que você conta pra ela depois de um dia entediante do seu trabalho?
 –Quer saber? – Pedro alterou a voz – Eu não ligo para o que um sistema operacional fajuto tem a falar de mim!
– FAJUTO? – Disseram de uma única vez todos aqueles celulares nas mãos das pessoas que passavam ali por perto.  Então, toda aquela gente, outrora vidrada em seus aparelhos, curiosamente despertaram e olharam Pedro, fuzilando-o. Da mesma forma que alguém o fuzilaria por menosprezar um companheiro do mundo real.
Aproximavam-se de Pedro ainda com olhos de sangue. Centenas a sua volta, como se cobrassem explicações sobre aquilo. Estavam tão próximos que Pedro já podia sentir as respirações trombarem com sua pele.
– Ah! – Gritou Pedro, que levantou num pulo da cama. Colocou seus óculos fundo-de-garrafa, correu para o banheiro e se olhou no espelho. – Ufa...
O garoto voltou para a cama, pegou seu celular e mandou uma mensagem de voz para uma colega pelo WhatsApp.
– Nanda, tive um pesadelo horrível!
– O que teve de tão horrível??? – Respondeu a menina, surpresa. 
– Eu não tinha um smartphone!

Luís Fellipe Alves

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Com quantos trem se faz uma Minas Gerais








Minas é de uma riqueza impressionante. Não estou falando de dinheiro público que vira imposto e vira cachê de político corrupto. Estou falando da cultura, desse povo que tem história pra contar do que assistiu com os próprios olhos ou do que ouviu dos pais e avós. Sim, estou falando do pão-de-queijo mais gostoso do país e do sotaque que se define de longe. 
Mais precisamente, em Uberaba a gente nota certo ar de interiorzão numa cidade não mais tão pequena. Existem mais que trezentos mil habitantes por aqui, inúmeros carros e motos que enchem as apertadas avenidas e ruas principais. Barulho, gente por todo lado, movimento absurdo em horários de pico. Mas ainda é possível se deparar com ruas calmas, de paralelepípedos, nos bairros mais velhos e populares da cidade. Vizinhança pacata, idosos que sentam em frente suas casas e descascam mexerica ou apanham acerola do pé.
Existe um costume muito engraçado por essas bandas. Tudo por aqui é trem. Isso mesmo. “Trem” é uma variável que aceita incontáveis significados, que dependerá do contexto em que for inserida. Vamos aos exemplos.
Uma pia cheia de louça por aqui é uma pia cheia de trem. Já quando estão tentando falar de diabo, referem-se ao trem ruim. Mas trem ruim pode ser também qualquer coisa comestível com sabor desagradável, um sapato apertado ou uma sensação ruim tipo uma tonteira. Trem bão segue a lógica contrária.
Às vezes você encontra alguém com vontade de comprar aquele trem (chocolate, sapato, vestido, carro, fritadeira sem óleo Philips Walita), amassar aquele trem (papel, cartaz de político),  queimar aquele trem (pilha de folhas secas, carta de ex), lavar aquele trem (roupa de criança) com aquele trem de tirar manchas (Vanish), colocar aquele trem pra secar (tapete, toalha, colcha, lençol, dinheiro esquecido no bolso da calça) ou comer um trem diferente (sair do arroz e feijão por um dia).
Quanto aos outros costumes, digo usando de exemplo minha avó e alguns outros idosos que conheci por aqui. Contos e histórias de um tempo distante, quando maioria da população interiorana ainda estava em fazendas e os pobres moravam em casinhas simplórias dentro das terras dos patrões. Todas aquelas crenças medicinais insistentemente desmentidas pela medicina contemporânea e outras mil vezes mais valiosas que um analgésico. Ferraduras, sal grosso, e todo um sincretismo advindo dessa mistura que é o Brasil. Nada mais bonito.
            Aprecio tanto isso porque em São Paulo é algo já muito raro de se ver. Talvez mais para o interior ainda sobrevivam, mas cidades como a minha já adotaram um estilo de vida muito urbano, contemporâneo, e os costumes custam sobreviver, pois são de responsabilidade de gerações preocupadas em cuidar da difícil vida caótica. Por isso tão especial essa Uberaba (e imagino que muitas outras cidades de Minas). Lamentavelmente, essa cultura forte parece esfarelar aos poucos também por aqui.
Dia desses fui a uma palestra sobre ética de um engenheiro civil e cronista. Identificação máxima. Aquele senhor tinha, além de um currículo exemplar, uma experiência de vida maravilhosa. Imaginem uma pessoa que vai a busca de atas de uma cidade e procura próximo a maio de 1888 informações sobre a abolição da escravatura. Por curiosidade. E não acha qualquer citação sobre o assunto em plena cidade mineira que já existia em tal época! Além de ser uma criativa curiosidade, conseguiu que a câmara providenciasse um pedido de desculpas a população uberabense. Pra dar mais um tchan na palestra, ainda teve Epitáfio do Titãs para refletirmos sobre a vida.
Conhecer um lugar novo é mais do que procurar pelos problemas que se assemelham de onde se vem. É ir atrás do fresco, do desconhecido, daquilo que até então não fazia parte da rotina ou do conhecimento. Não cheguei aqui procurando por assalto, enchente, corrupção política pra saber se teria que reviver tudo outra vez. Fui à busca de tudo aquilo que seria pauta para um bom texto e para outro ângulo de história. E achei. Definitivamente não sei com quantos trem se faz esse estado. Mas posso garantir: trem bão aqui, sô!

                                                         
                                               Luís Fellipe Alves

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